Saturday, February 23, 2008


ARQUEOLAFÕES IV

Cova do Lobisomem


Só o nome dá curiosidade de conhecer e eu conheço muito bem pois não me canso de a visitar ano após ano e cada vez mais me intriga a sua localização no tempo passado, relacionado com a sua utilização. Quem a utilizou, e em que tempos(?), é pergunta que não temos visto respondida. Aristides de Amorim Girão nas suas Antiguidades Pré-Históricas de Lafões de 1921, faz uma excelente descrição desta gruta que passo a citar: "... na margem direita do rio (Couto), cerca de 200 m. a montante da torre medieval (de Cambra) ... encontramos uma caverna unteressantíssima, do período paleolítico, conhecida pelo nome deveras sugestivo de Cova do Lobisomem, onde si vera est fama, se recolhe 0 fantasma a descançar das longas fadigas que pasa percorrendo sete freguesias numa noite... A situação da caverna em relação ao rio e o facto de ficar na parte externa duma curva deste, onde a erosão é portanto mais activa, levam a crer que ela tenha sido em parte escavada pelas águas; mas é na sua máxima parte artificial. Consta de uma galeria ou corredor cuja entrada mede 2,40 m. de altura por 2 m. de largura; vai estreitando gradualmente para o interior, conduzindo a uma vasta câmara de forma oval irregular por um estrangulamento onde a custo cabe um homem de pé, pois não tem de largura mais de 0,40 m., tendo aliás 2,20 m. de comprimento. A câmara com cerca de 5 m. de comprido por2,50 m. de largo e outro tanto de alto, pode comportar dez homens bem à vontade. O comprimento total, incluíndo a galeria e câmara, regula por 18m. Toda a caverna foi aberta em saibro muito rijo, quási tão consistente como o granito, tendo na parte superior da câmara um pequeno buraco totalmente tapado por uma cobertura de calhaus rolados ligados por um cimento arenoso e argiloso muito duro e incontestavelmente produto da indústria humana; o fundo está completamente obstruído de areia e calhaus rolados." É a melhor e mais completa descrição da Cova do Lobisomem que eu conheço, apesar dos seus 87 anos de idade. Em Vouzela: A Terra, os Homens e a Alma (2001), faz-se uma referência curiosa à Memória Estadística de Lafões (1823) do Dr. Joaquim Baptista: "... Perto do rio do Espírito Santo em Cambra, há uma escavação muito longa em terreno de aspecto aurífero, e os mais sensatos crêem ser cava subterranea, que de alguma fortaleza guiava ao rio, a fim de se fornecerem de agoa os assistentes no Castello. Quanto a mim, pelo aspecto do terreno, direcção e extensão da Cava, suponho serem galerias de mina antiga do tempo dos Fenícios, Cartagineses ou Romanos". Na Carta Arqueológica do Concelho de Vouzela (1999), tal como em Vouzela:Património Arqueológico; sítios e rotas (2005) não é feita quaquer referência a este sítio. Porquê?... Fica a pergunta e já agora uma fotografia em que se pode ver a entrada, a galeria e ao fundo a câmara.

"Existem coisas que, para as saber, não basta tê-las aprendido"

Séneca

Tuesday, February 19, 2008


ESMERILHAR

Voltando ao nosso vocabulário, surge hoje uma palavra que ouvi no barbeiro, ao falar com um cliente a quem fazia a barba perguntando-lhe se quando fazia a barba em casa a pele se costumava esmerilhar. Fiquei a pensar nesta palavra e recorrendo mais uma vez ao Grande Dicionário da Língua Portuguesa, fiquei mais baralhado; dizia o seguinte: Esmerilhar, v. tr. O m.q. esmerilar. Esmerilar, v. tr. Polir ou despolir com esmeril.//Fig. Aperfeiçoar; pesquisar.//Esquadrinhar. Continuava intrigado e tentei procurar quaquer coisa na Internet e no dicionário inFormal alguém definia esmerilhar como "dançar tão agarradinho com se os dois fossem um só". Continuei a procurar e encontrei outra definição: dar os retoques finais. Mas estava ainda longe do esmerilhar do barbeiro. Entretanto ia correndo o google e a certa altura fez-se luz quando ao falar de ferramentas eléctricas para esmerilhar surgiram os significados de polir ou lixar. Ora aqui estava a resposta à minha pergunta, esmerilhar è uma forma polida de dizer lixar. Nas minhas pesquisas encontrei ainda o termo esmerilhar o bimbo que será um termo popular para a cópula tão invulgar como por exemplo esmurrar a cotovia, agasalhar o croquete, meter o invertebrado ou espocar a silibina (vá-se lá saber porquê!).

Atenção: a foto mostra uma máquina de esmerilhar e não de barbear; não tentem fazer a barba com aquilo...

Devo ter uma enorme quantidade de inteligência; às vezes até levo uma semana para a colocar em movimento.

Wednesday, February 06, 2008





CAMBALACHO

Esta também não encontrei no dicionário, mas aqui a razão é simples. O termo cambalacho foi popularizado pela novela brasileira com o mesmo nome, significando cambalacho golpada, logro ou como dizem os brasileiros trambique. Foi uma das novelas de maior sucesso no Brasil, onde passou em 1986. A novela foi também exibida em Portugal, pelo que o termo cambalacho atravessou assim o Atlântico.

Cambalacho em Portugal é nome de jogador e treinador de futebol. Uma recente sondagem aos adeptos do Boavista FC, considera Osvaldo Cambalacho um dos treinadores mais importantes que passaram pelo clube, talvez porque na década de 60, em que o clube andou por divisões secundárias, mais concretamente em 1966, foi ele o treinador da subida à primeira divisão num dramático jogo em Fafe, onde o Boavista empatou depois de ter vencido no Bessa por 2-1.

Osvaldo Cambalacho, como jogador foi campeão nacional no FC Porto.


"Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem"
P. António Vieira



















Wednesday, January 30, 2008




PAREIDOLIA




Voltamos ao vocabulário, e esta não encontrei no dicionário, mas existe.

A pareidolia é um tipo de ilusão ou percepção equivocada, em que um estímulo vago ou obscuro é percebido como algo claro e distinto. Por exemplo, quando alguém vê o rosto de um homem na lua, animais ou caras na forma das nuvens ou uma cara de um velho num qualquer afloramento granítico.
Em circunstâncias normais, a pareidolia fornece uma explicação psicológica para várias ilusões baseadas na percepção sensorial. Por exemplo, explica vários avistamentos de ovnis ou a audição de mensagens sinistras em discos tocados ao contrário assim como numerosas aparições. Em circunstâncias clínicas, alguns psicólogos incentivam a pareidolia como um modo de entender o paciente. O mais famoso exemplo desse tipo de procedimento clínico é o teste de Rorschach.
Pareidolia é a tendência do cérebro humano em reconhecer padrões familiares, tal como rostos.
Obtido em "http://pt.wikipedia.org/wiki/Pareidolia"

Pareidolia deriva etimologicamente do grego eidolon (figura ou imagem) e com o prefixo par (junto a) e é um fenómeno psicológico consistente em que um estímulo vago e aleatório é percebido erroneamente como uma forma reconhecível.

"Frecuentemente el ser humano al observar un objeto, una nube o una mancha, tiende de manera inconsciente, a reconocer en estos objetos con formas caóticas, patrones asimilables a objetos conocidos. Este fenómeno es conocido como pareidolia". Bustamante, 2007. http://rupestreweb.info/hierofania.html
"Diversas obras rupestres y sitios arqueológicos a través del mundo, presentan características que permiten asociarlos con el fenómeno denominado pareidolia . En ellos, accidentes del paisaje, rocas, etc, presentan formas que semejan personas, animales, etc. Parece ser un fenómeno extensivo que podría constituirse tanto en una herramienta de análisis como de contraste de obras y entornos pertenecientes a diversas culturas a través del mundo". Bustamante. http://www.rupestreweb.info/pareidolia2.htm
A apofenia permite compreender o mecanismo psicológico mediante o qual determinadas formas sugerem ao observador relações que poderiam explicar em parte a origem de lendas e cosmogonias de diversas culturas.
Na foto encontra-se o caso mais famoso de pareidoloia: a cara na região de Cydonia Mensa em Marte fotografada pela sonda Viking 1 Orbiter.

"Justiça extrema é injustiça".
Cícero



ARTEFACTO

Artefacto, s.m. (de arte+facto). Objecto, obra de arte, ou qualquer trabalho produzido pelas artes mecânicas. Artefacto, adj. Fingido com arte ou astúcia; artificial. São estes os dois significados que encontro no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de 1981, coordenado por José Pedro Machado.

Mas, pelos vistos há mais:
Um artefacto cultural é um objecto feito pelo homem e que fornece informações sobre a sua cultura. O artefacto pode mudar ao longo do tempo. A classificação sobre quando, como e porque ele é usado como uma cultura também pode mudar com o tempo, dependendo de novas descobertas.
O uso do termo artefacto engloba o tipo de artefacto arquelógico, que é recuperado num sítio arqueológico; no entanto, os objetos criados pelo homem na sociedade moderna também são artefactos culturais. Por exemplo, em um contexto antropológico, uma televisão é um artefacto da cultura moderna.

Em arquelogia, o artefacto é qualquer objecto feito ou modificado pelo homem, que dê evidência da actividade e da vida desse homem. Muitas vezes, tais artefactos foram recuperados mais tarde pelo esforço de alguns arqueólogos.
Exemplos de artefactos podem incluir itens tais como ferramentas de pedra ou ruínas de construções. Também incluem cerâmica, vasos, objectos metálicos e elementos de adorno pessoal, como jóias e de vestuário e outros.

Artefacto em ciências da computação, é o produto de uma ou mais atividades dentro do contexto do desenvolvimento de um software ou sistema.

Artefacto em ciências experimentais, é um resultado de uma experiência que não poderia acontecer naturalmente e que foi causado por um método de experimentação errado.

Como imagem deixo um dos mais misteriosos e ainda indecifrados artefactos arqueológicos, que é o Disco de Phaistos, datado do final da era de bronze Minóica e que está em exibição no museu arqueológico de Iraklion em Creta, na Grécia. Ainda não há uma interpretação do "texto" do Disco de Phaistos plenamente aceite pela comunidade científica. Ele continua a ser o mais antigo enigma linguístico não decifrado pelo ser humano.

"Triste não é mudar de ideia. Triste é não ter ideia para mudar."
Francis Bacon

Sunday, January 27, 2008


CASTROS

Há algumas semanas passei uns dias pelo Minho e passando na Póvoa de Lanhoso, visitei o célebre roqueiro onde se encontra o castelo, que segundo a lenda, albergou D. Teresa, mãe do nosso primeiro rei, que para aí terá sido desterrada após a derrota na batalha de S. Mamede que nos iria garantir a nacionalidade. Existe outra lenda ligada ao castelo, bem mais tenebrosa: sendo seu alcaide Gonçalves Pereira de Barredo e ausentando-se por duas semanas, quando voltou teraá encontrado a mulher em adultério flagrante com um frade de Bouro, seu confessor. Louco de raiva mandou o alcaide trancar o castelo e deitar-lhe fogo, queimando vivos todos os que lá se encontravam pois os considerava cúmplices do adultério, sabendo o que se passava e sem nada lhe denunciarem...

Mas, lendas à parte lá fomos subindo até ao castelo, passando sensivelmente a meia encosta pelos vestígios do castro de Lanhoso ou "Laginoso", um núcleo de estruturas bem conservadas e sinalizadas, dispondo de uma área de estacionamento e sinalização vertical que disponibiliza informações ácerca do local e uma planta detalhada das ruínas.

Mais acima, ao chegar ao castelo deparamos com um prequeno núcleo museológico, muito bem organizado onde nos foi permitido observar e fotografar o capacete de bronze em excelente estado de conservação, contemporâneo da cultura castreja e que vale a pena observar.

Foi aqui que juntamente com a bibliografia sobre as terras e o castelo de Lanhoso, encontrei uma obra de rara beleza e singularidade por quem se interessa pela cultura castreja. Trata-se do "Guia dos Castros da Galiza e Noroeste de Portugal" editado pela ADRAVE (agência de Desenvolvimento Regional do Vale do ave, S.A.) em Junho de 2006 com uma tiragem de 750 exemplares, integrado no projecto CASTRENOR (Cultura Castreja do Noroeste Peninsular, formada pela Adrave, Universidade do Minho, Câmara Municipal de Monção e Xunta de Galicia). É uma publicação excelente que como dizem os seus autores "tem uma virtude inegável: pela primeira vez podem-se encontrar, numa única publicação, castros de ambos os lados da actual linha divisória entre a Galiza e Portugal. Nesse sentido constitui um avanço importante sobre outras publicações precedentes por explicitar, de forma conjunta, a realidade cultural que, há mais de 2000 anos, esteve presente nos nossos territórios."


"O livro é um mestre que fala mas que não responde"

Platão

Tuesday, January 22, 2008


CONTORCIDO, adj.

(de contorcer). Que sofreu contorção; serpenteado, dobrado. // Que sofreu desvio ou modificação (em sentido próprio e figurado). Como sempre, fui ao Grande Dicionário da Língua Portuguesa de 1981 buscar estes significados, mas pode haver outros. Por exemplo na micro anatomia do rim aquilo que em Portugal se chama tubo contornado proximal (e distal) no Brasil tem o nome de túbulo contorcido proximal (e distal)

CALEIDOCICLOS CONTORCIDOS: O desenho de motivos entrelaçados usados para esses caleidociclos (desenhos periódicos), baseia-se numa rede de rectângulos. Para cobrir o caleidociclo contorcido, sobrepôs-se ao desenho periódico uma rede obliqua de triângulos, de forma que as arestas do topo e da base, assim como as da direita e da esquerda, condissessem uma as com as outras. Os retângulos no padrão original determinam o comprimento das arestas dos triângulos e os seus ângulos de inclinação. Quando girar este caleidociclo contorcido, verá as figuras cambalearem num ciclo infinito.

Tal como os caleidociclos, conhecemos ao longo da nossa vida pessoas oblíquas e contorcidas que cambaleiam pela vida num ciclo indefinido.


"A melhor resposta às calúnias é o silêncio"

Benjamim Jonson

Sunday, January 20, 2008

PAISICAICOI IIACINS





Volto às minhas origens, vamos esclarecer um pouco mais sobre a inscrição rupestre das Corgas Roçadas, no lugar da Torre, freguesia de Carvalhal de Vermilhas, concelho de Vouzela. A sua importância epigráfica foi reforçada em 1997 aquando do II Simpósio Ibero-Itálico de Epigrafia Rupestre que decorreu em Viseu, altura em que "fui" admirado numa visita efectuada pelos participantes no dito Simpósio. Uma das figuras que "me" tem mostrado ao mundo é o ilustre arqueólogo do Centro de Viseu da Universidade Católica, Prof. J. L. Inês Vaz, com algumas comunicações e trabalhos científicos na área da epigrafia na Civitas de Viseu, a que farei referência na pequena resenha bibliográfica, no final deste texto. No recente Inventário do Património Arquitectónico e Arquelógico do Concelho de Vouzela, na referência a Paisicaico diz-se que o seu significado é desconhecido. José d'Encarnação, Prof. do Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra, faz referência a Paisicaico em diversas publicações, como podendo ser uma divindade indígena e assim venerada naquele local. Outras interpretações têm sido aventadas e algumas bem curiosas: fui encontrar aos arquivos do Notícias de Vouzela dois artigos muito interessantes publicados nas edições dos dias 1 de Junho e 16 de Setembro de 1955, com honras de primeira página, já lá vai mais de meio século. Estes artigos faziam referência a uma excursão arqueológica ao Caramulo fazendo referência a Três notáveis inscrições inéditas do concelho de Vouzela; desta excursão faziam parte, como arqueólogos o Prof. Moreira de Figueiredo e a arquitecto Rogério de Azevedo, ilustre Prof. da Escola de Belas Artes do Porto. Na edição de 1 de Junho de 1955 fala-se de uma possível tradução daquelas palavras pelo Prof. Rogério de Azevedo como: ..."Ensina as crianças a lutar contra o inimigo, mesmo descansando. A acção agrada à juventude"... A interpretação de Rogério de Azevedo, publicada já na edição de 16 de Setembro diz ... à falta de caracteres gregos, será assim: PLIS (chrones) IK (anousi) LICH (n) OI PACHI (o) N (e) S... cuja versão dá: "Eis que se aproximam os ávidos glutões mais fartos" ou "Eis que vêm mais fartos os ávidos glutões". Era interessante ter outras opiniões, mais quaisquer que elas sejam Paisicaico será sempre para mim PAISICAICOI IIACINS.








automaticnetwork.com/cm-vouzela/planeamento/Inventário_Patrimonio.pdf

www.educa.jcyl.es/educacyl/cm/images?idMmedia=56108


Divindades Indígenas sob o Domínio Romano em Portugal (Subsídios para o seu Estudo), Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1975 - José d'Encarnação


Inscrições Romanas do Conventus Pacensis - Subsídios para o Estudo da Romanização, 2 volumes, Coimbra, 1984 - José d'Encarnação


Divindades Indígenas da Lusitânia, Conímbriga vol. XXVI, 1987 - José d'Encarnação
Saxa Scripta na Civitas de Viseu: Algumas notas, Máthesis, Viseu 4. João L Inês Vaz
Notícias de Vouzela, Ano XXI, 1 de Junho de 1955
Notícias de Vouzela, Ano XXI, 16 de Setembro de 1955







Tuesday, January 08, 2008




ARQUEOLAFÕES III
Anta pintada de Antelas




A anta pintada de Antelas ou dolmen de Antelas é um dos principais monumentos megalíticos de Lafões e pela suas características únicas de estar toda a sua superfície interior coberta por pinturas rupestres e estar a sua mamoa bastante bem preservada torna-se um monumento ímpar em relação aos seus congéneres. Amorim Girão descreve-a nas suas Antiguidades Pré-Históricas de Lafões, em 1921 assim: ...A antela completa é formada por nove grandes lajes de granito, de aproximadamente três metros de altura. A laje voltada a poente dispõe-se verticalmente sobre oe solo, e as outras, à medida que se encostam umas às outras, vão-se também tornando oblíquas, a ponto de as lajes voltadas a nascente chegarem a formar com o solo um ângulo de cerca de 45º. A secção horizontal, que à superfície é aproximadamente circular, de 1,50 metros de diâmetro, torna-se na base elíptica ou oval, com 3,50 metros na direcção do seu eixo maior; as lajes de forma grosseiramente triangular com o vértice voltado para cima e com uma espessura que regula por 0,20 metros, encostam-se, como dissemos, umas contra as outras, por tal forma que a falta de uma delas comprometeria fatalmente a estabilidade do conjunto. O todo encontra-se, na sua quasi totalidade, envolvido por mamoa formada da terra e pequenas pedras, com cerca de 10 metros de raio... Uma coisa singular notámos nesta antela: as lajes, alisadas na face interna, apresentam uns vivos desenhos em xadrez, a ocre vermelho, estando a tinta perfeitamente conservada, mesmo na parte mais directamente exposta à intempérie... O arqueólogo francês Marc Devignes chama-lhe o Lascaux do megalitismo (a imagem é bonita e aplica-se bem ao monumento e tem um maior significado por ter sido um francês a dizê-lo e mais, a escrevê-lo pois Lascaux fica em França e Antelas em Portugal... Todo o conjunto é interessantíssimo e merece uma visita. Deixo uma fotografia (do autor destas linhas, de 1996) da figura antropomórfica desenhada no esteio da cabeceira a vermelho e negro cuja datação pelo Carbono 14, a situa numa franja entre 3.625 e 3.140 a. C.
"Existir não é pensar: é ser lembrado"
Teixeira de Pascoaes

Monday, December 31, 2007


ARQUEOLAFÕES II


Pedra Escrita


Pedra Escrita em Serrazes, é um monólito granítico com pouco mais de 2,5 metros de altura por 2 metros de largura.
Este monumento pré-histórico, segundo Aristides de Amorim Girão, o grande geógrafo arqueólogo lafonense, poderá ser datado do séc. X a.c.
Um dos mais importantes vestígios de arte rupestre da região de Lafões é composto de vários círculos concêntricos com covinha central e de rectângulos divididos em quadrículas, de difícil interpretação, mas que poderá na minha modesta opinião ter a ver com o culto do sol e da lua e com representações estilizadas do mundo superior e do mundo inferior tão importantes no imaginário e religiosidade dos povos dessa época.

A Pedra Escrita foi classificada como Imóvel de Interesse Público, pelo Decreto nº 35.532, de 15 de Março de 1946. Actualmente, encontra-se protegida simplesmente por um pequeno telheiro, exposta às intempéries e ao vandalismo. Uma placa interpretativa seria interessante!


"O homem foge da sua sombra anterior para a sua luz futura"

Teixeira de Pascoaes

Sunday, December 23, 2007



ARQUEOLAFÕES


Menires do concelho de Vouzela


Em Junho de 2002, após ter lido com todo o interesse um artigo sobre uma breve notícia dos menires de Alvarenga e da Serra da Freita, verifiquei que havia algumas coisas que gostaria de ver esclarecidas, e por isso escrevi, por duas vezes para o Centro de Estudos Pré-Históricos da Beira Alta, mas em nenhuma delas obtive qualquer resposta. Eis o teor da respectiva missiva e as fotografias, para os meus leitores se situarem e darem também a sua opinião.

"Antes de mais, os meus cumprimentos e as minhas felicitações pela existência dessa Associação cultural e científica, que concerteza vela pela investigação, preservação e divulgação do rico património arqueológico da nossa região.
Desde pequeno me interessei pela arqueologia e várias vezes percorri o concelho de Vouzela, primeiro a acompanhar o meu pai e, mais tarde com amigos, ou apenas com as "Antiguidades Pré-Históricas de Lafões" de Amorim Girão, que apesar de terem já 80 anos continuam a ser o mais completo e exaustivo estudo da pré e proto-história da nossa região.
Foi assim com imenso interesse que soube da existência da vossa Associação, esperançado que estou no desenvolvimento e expansão dos estudos pré-históricos não só do concelho de Vouzela (que conheço melhor), mas também de toda a região de Viseu. Por isso muito gostei de ver em "Estudos Pré-históricos" vol.I um interessante trabalho sobre a Casa da Orca, uma das antas do concelho de Vouzela que se encontra num local de excelente envolvência e cuja mamoa está razoavelmente conservada e englobada num conjunto de três mamoas a merecer cuidada investigação. Gostei também bastante do trabalho sobre a estela-menir da Caparrosa. Achei muito interessante todo o vol. III e o artigo sobre o Monumento 2 da Serra de Muna, no vol. VI.
Não gostei, e talvez seja eu que estou errado, de um artigo que vem no 2º volume das Actas das V Jornadas Arqueológicas da Associação dos Arqueólogos Portugueses da autoria de Fernando A. Silva e António M. Silva "Menires de Alvarenga e da Serra da Freita (Arouca, Aveiro)Beve notícia".
Aí se faz notícia, "inédita", da "descoberta de um conjunto de três menires na Serra da Freita e de um outro em Alvarenga, no concelho de Arouca,"que, "veio enriquecer de modo especial o património arqueológico de uma região".
Não quero duvidar da descoberta que foi feita, mas permito-me discordar quando é dito (e parece ser a principal conclusão do trabalho, pois destaca-se nas conclusões e merece duas fotografias) que "Os pretensos menires das Pedras Altas (Fataúnços) e Bicão dos Conqueiros (Ventosa), no concelho de Vouzela, Viseu, perpetuados na bibliografia da especialidade desde que Amorim Girão os assinalou em 1921, mais não são afinal que meros blocos naturais de morfologia mais ou menos sugestiva, não devendo portanto continuar a ser referidos como verdadeiros menires pré-históricos".
Eu não sou arqueólogo, mas como escreveu Amorim Girão, "não se alegue falta de conhecimentos técnicos nestes assuntos, em que uma boa vontade e uma observação rigorosa.." por vezes valem mais que muitos livros ou palavras... E desde há vários anos, que todos os anos vou até ao Bicão dos Conqueiros, e, dizer que não existe um aspecto antropomórfico, só quem nunca lá foi!
Também o Académico João Luís Cardoso, numa publicação da Academia Portuguesa de História datada de 1999 – “Vouzela- Estudos Históricos”, no capítulo “Monumentos megalíticos do concelho de Vouzela”, pág. 172-174, se refere de forma exautiva àqueles dois menires, que são também referenciados por V. Leisner em 1998 no seu livro “Die Megalithgraber der Iberischen Halbinsel”.
Gostava sinceramente de saber qual a vossa opinião ácerca destes dois monumentos pré-históricos da nossa região, e se acham correcta a forma como aqueles dois autores os apagam da lista de antiguidades pré-históricas do nossso país, sem, na minha modesta opinião, sustentarem minimamente essa tese.
Não quero de forma alguma ir contra os especialistas, mas apenas ser esclarecido.
Gostava finalmente, e peço desculpa pelo tempo que vos tomei, de saber como me posso juntar à vossa Associação, pois apesar de não ser um especialista, sou desde há muitos anos um apaixonado pela arqueologia.
grato pela vossa atenção, despeço-me com os meus melhores cumprimentos"


Isto foi o que escrevi e reescrevi na altura sem resposta. Deixo-vos com duas fotografias de 1994 do Bicão dos Conqueiros e também uma fotagrafia dos impressionantes menires do conjunto megalítico "Os três irmãos" da Serra da Freita.
Tenho o hábito de não falar daquilo que ignoro
Sófocles


Tuesday, December 18, 2007



DA MINHA JANELA VIII




No mês mais produtivo da minha blogação, vai mais um olhar para dentro Da minha janela.




Consulta trocada


"O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele"

Nietzsche


No meio de mais uma tarde de consultas, numa quinta-feira cinzenta e fria de Março, felizmente quase fim de semana, surge-me um casal jovem com uma criança pequena de cerca de dois anos de idade, trazendo a mãe na mão um envelope com o que pareciam ser umas análises e mais alguns papéis que mais tarde me seriam mostrados, assim pensava eu.
Antes mesmo de se sentarem, a mãe da Filipa – assim se chamava a menina – estendeu-me o que trazia na mão e começou, antes mesmo que eu pudesse ver o que ela tinha pousado na secretária à minha frente:
- Doutor, nós viemos cá porque a nossa filha vai ser operada amanhã e nós queríamos saber se era mesmo preciso!
Perante esta introdução, sentei-me melhor na minha cadeira, respirei fundo e perguntei:
- Mas se a criança vai ser operada já amanhã, porque vieram cá e porquê apenas hoje?
- Foi uma amiga minha, que o doutor já viu o filho que nos disse que o doutor estava muito habituado com crianças e nos podia dar uma orientação sobre se ela precisa mesmo de ser operada ou não.
- Mas, afinal… - comecei eu, quando fui interrompido pela senhora, que continuou:
- Olhe – disse, apontando para cima da secretária – estão aqui as análises que o médico pediu e como ele ainda não as viu, gostava que o doutor me dissesse se estão bem para a menina ser operada.
- Mas… - ia eu de novo a tentar falar quando a senhora se levanta de repente e pegando na criança, a manda abrir a boca e deitar a língua de fora, dizendo:
- Está a ver doutor, a menina está com a língua assim branca desde ontem; acha que está a ficar doente? Se calhar não pode ser operada!
Antes que eu pudesse abrir a boca, não para mostrar a língua, mas para tentar falar, no meio daquele turbilhão de informação desencontrada, foi a vez do pai, até essa altura um pouco à margem do que se estava a passar no consultório, que atirou:
- Olhe doutor, e apareceram-lhe umas pintinhas vermelhas nas pernas; acha que é sarampo?
- Não – interrompeu a mãe – isso foi de certeza do chocolate que a tua mãe lhe deu ontem sem eu saber…
- Bem – disse eu, levantando-me e não deixando começar o que poderia vir a ser uma discussão conjugal em pleno consultório médico – vamos mas é ver a Filipa primeiro e depois continuamos a conversa, está bem?
Depois de uma cuidadosa observação, não consegui descobrir qualquer alteração nos ouvidos, nariz ou garganta da criança, pelo que disse aos pais:
- Da minha parte parece-me que está tudo bem!
- Mas – disse a mãe muito depressa, mostrando a barriga da menina – o doutor não lhe viu a barriga e, está a ver este alto aqui no umbigo, é a isto que ela vai ser operada!
Incrédulo, tentei explicar à mãe que aquele problema era resolvido por colegas de outra especialidade, mas foi em vão pois a senhora levantou-se, arrastando consigo o marido, a filha e os papéis que me havia colocado em cima da secretária e que eu não consegui chegar a ver, e boa ajuda me teriam dado…
Entre dentes ainda a ouvi dizer à saída do consultório:
- E ainda dizem que os médicos estudam muito, para não conseguirem ver uma coisa que até eu sem óculos consigo ver, parece impossível; e eu que tinha tão boas referências deste doutor!...

Tuesday, December 11, 2007


DA MINHA JANELA VII


Embalado com os "textos" que vou vendo Da minha janela, vou agora até Lisboa, há muitos anos atrás, num dia de Sporting-Benfica.


Benfica-Sporting

Esta história passou-se há alguns anos, num fim de tarde de domingo, talvez em Setembro ou Outubro, já não me lembro bem.
Estava eu no fim de um dia de urgência no hospital, ainda calmo, talvez porque o dia esteve bom e as pessoas foram para a praia, talvez porque fosse dia de Benfica-Sporting…
Chega então um senhor (e disto já me lembro bem), dos seus 40 anos, muito aflito, com sensação de falta de ar, aperto no peito, e que apontava com gestos frenéticos para qualquer sítio no fundo da sua garganta que não o deixava engolir nem mesmo respirar. Quanto ao engolir era bem verdade mas em relação ao respirar era o natural exagero de quem estava extremamente ansioso, até porque além do mais o seu clube tinha acabado de perder e logo com o grande rival, ainda por cima logo no início do campeonato. Era demais para um dia de domingo que estava a ser tudo, menos um dia de descanso entre duas semanas de trabalho no reinício do ano, após as férias de verão.
Perante este quadro, e a dificuldade até em falar do pobre homem, um amigo que o acompanhava começou a contar o que havia então sucedido:
- Eram cerca de quatro da tarde e preparávamo-nos para ir para o estádio ver o jogo que começava às sete e um quarto. Como sempre, fomos um pouco mais cedo para morder o ambiente e beber umas cervejas antes de começar a bola. Ora, este meu amigo teve a brilhante ideia de ir comer uma sandes de courato e lá nos dirigimos para a roulotte que ele entendeu mais apropriada para o apronto. Eu fiquei-me por uma bifana e uma sagres e aqui o rapaz – disse, dando-lhe uma palmada nas costas que o fez estremecer – emborcou duas cervejas e uma sandes de courato quase inteira de uma só dentada. A partir daí foi um ai Jesus, ai que não consigo engolir, ai que me falta o ar, ai que me dói o peito e um sem número de outros ais que não importa estar aqui a repetir (…), até chegarmos aqui para o doutor ver se lhe tira o mal do peito.
- Vamos então fazer uma radiografia para ver o que temos aí dentro, que eu próprio estou curioso.
A radiografia mostrava realmente, entre a garganta e o estômago uma série de ténues imagens que podiam corresponder a pedaços de courato da maldita sandes em dia de Benfica-Sporting.
O problema foi resolvido facilmente com um exame simples, com anestesia geral e, no dia seguinte, após beber um chazinho frio sem dificuldade, o senhor Antunes – lembro-me agora do nome dele – teve alta, jurando a pés juntos que nunca mais comia sandes de courato.
Passaram os anos e no dia de um grande jogo de futebol a que eu ia assistir, parei como tanta gente, numa daquelas roulottes para confortar o estômago antes do jogo, e ouço ao meu lado uma voz que me fez voltar alguns anos atrás:
- Por favor, era uma sandes de courato e uma sagres

Sunday, December 09, 2007




DA MINHA JANELA VI







Depois de uma boa noite de sono vou ver mais uma vista Da minha janela, desta vez sobre Belgrado em Abril de 2006.







Corvus corone cornix

Há uns tempos estive em Belgrado, em trabalho, durante alguns dias. Era a primeira vez que me deslocava a um país da ex-Jugoslávia, e logo à Sérvia, que continua a guardar as marcas de anos e anos de guerras e uma grande instabilidade social e de fronteiras (quando lá estive, ainda se chamava Sérvia e Montenegro!).
Numa visita guiada por Belgrado vimos vários edifícios oficiais da antiga Jugoslávia que guardam à vista de todos, sérvios e não sérvios, os resultados dos bombardeamentos da NATO em 1999, em que a capital Sérvia foi bombardeada todas as noites durante 79 dias. Curiosamente ou talvez não, as pessoas que viveram esses momentos dizem-nos que o seu dia-a-dia se manteve inalterado pois os bombardeamentos eram só de noite e os alvos eram estrategicamente escolhidos e raramente falhavam. É difícil de compreender para nós, assim como é difícil ver uma cidade e um país do centro da Europa (mas fora da nossa Europa) a viver uma vida tão diferente da nossa: as ruas e os edifícios sujos e degradados, um parque automóvel como eu nunca vi nem em Portugal, nem há trinta anos atrás, contudo um povo confiante no seu futuro, apesar da “nossa” Europa estar ainda a muitos anos de distância e apesar disso tão perto… Mas, dentro daquele atraso socio-económico havia um Danúbio magnífico que ainda este ano tinha galgado as suas margens, com as suas marcas ainda presentes nas casas submersas nas margens alargadas pelos caprichos da natureza. No centro da outrora capital da Jugoslávia destacava-se pela sua imponência e pela extraordinária recuperação levada a cabo nos últimos anos, a magnífica catedral ortodoxa de St. Sava que pela sua alvura e grandiosidade se destacava de todos os monumentos de Belgrado. Ao passarmos e admirarmos a catedral, perguntei a um dos monitores do curso, que nos acompanhava, qual era a religião predominante na Sérvia ao que ele respondeu que era a cristã ortodoxa, mas que só agora estava a recuperar de anos de “clandestinidade”. Quando lhe perguntei a razão de ser dessa sua afirmação ele respondeu-me assim:
- No tempo do comunismo a ida à igreja não era bem vista pelas autoridades e por isso muita gente, com medo de represálias, não frequentava os locais de culto. Na minha família, a minha mãe é religiosa e cristã, mas não podia frequentar a igreja, pois o meu pai trabalhava para os militares e era vedado à sua família a prática religiosa sob pena de perder o seu emprego; assim muitas pessoas, durante muitos anos não puderam expressar a sua fé livremente e eu durante muitos anos nunca entrei numa igreja. Agora as coisas são diferentes e as pessoas podem exprimir livremente a sua fé e por isso muitos dos templos abandonados e esquecidos durante o comunismo voltam a ter a seu esplendor de outrora e a encherem-se de crentes.
Outro grande monumento de Belgrado é a imponente fortaleza de Belgrado, situada num local muito amplo e elevado na confluência dos rios Danúbio e Sava, com as marcas presentes de uma ocupação humana desde o Neolítico. Esta fortaleza alberga um grande parque, como muitos que há em Belgrado com árvores frondosas, jardins imensos e um habitante muito peculiar, pelo menos para nós portugueses: o Corvus corone cornix, ou gralha cinzenta, que em grande abundância povoa as árvores, os jardins, os telhados e a vida desta cidade. É uma ave impressionante pela sua envergadura, pela sua beleza negra e cinzenta e pela forma como convive de perto com os seres humanos.
A primeira imagem que eu tive da gralha cinzenta foi ao chegar ao meu quarto do hotel e olhando para a janela, ver ali pousada uma enorme ave de cerca de meio metro de envergadura e com umas cores magníficas que eu nunca havia visto antes, e que me acompanhou durante os dias em que estive em Belgrado.
Quando me preparava para deixar o hotel, rumo ao aeroporto e como que para se despedir, vem pousar na janela do meu quarto a minha amiga gralha cinzenta; ou seria outra? Não me interessa verdadeiramente quem era, mas a imagem que me ficou de Belgrado foi a de Corvus corone cornix.
"É quando a arte se veste com o tecido mais usado, que melhor se a reconhece como arte."
Nietzsche

Saturday, December 08, 2007


DA MINHA JANELA V


Neste profícuo mês de Dezembro, depois de uma deabulação pelo vocabulário, volto a olhar Da minha janela, desta vez sobre Colónia em Setembro de 2006.


Eichhörnchen

No ano passado estive em Colónia, na Alemanha e confesso que fiquei agradavelmente surpreendido com o que vi. Foi a minha primeira viagem à Alemanha e a ideia que eu tinha do país e dos seus habitantes era completamente diferente daquilo que vim a verificar com os meus próprios olhos. Às vezes fazemos uma ideia de determinada coisa ou até de uma determinada pessoa – para sermos mais abrangentes – e depois a realidade vem contra aquilo que nós tínhamos por adquirido.
Em relação à Alemanha e aos alemães, confesso que não tinha uma grande simpatia idealizada pelo país ou pelo seu povo mas, em apenas quatro dias, pude modificar por completo esta ideia negativa, por um lote muito variado de razões.
Em primeiro lugar, a organização. A organização de uma cidade com cerca de um milhão de habitantes é uma coisa extraordinária, pelo menos para quem vem de um país como Portugal; tudo parece funcionar sobre rodas, sem atropelos, sem constrangimentos de trânsito e, curiosamente com um metro de superfície eficientíssimo que percorre quase toda a cidade em várias linhas, não se notando qualquer problema com o tráfego rodoviário ou com as bicicletas que também têm, em toda a cidade, lado a lado com os automóveis, as suas vias de tráfego, que diga-se de passagem é bastante intenso.
Em segundo lugar, a segurança. De dia ou de noite, mesmo não se vendo um polícia, sentimo-nos seguros e isso é uma coisa que nos deixa tranquilos e nos faz desfrutar ainda melhor da nossa estadia.
Depois a simpatia das gentes. Há quem diga, talvez as más-línguas, que os alemães fizeram um grande esforço para bem receber durante o mundial de futebol, o que também terá contribuído para o sucesso do evento. Mas não é concerteza só isso, pois onde quer que fossemos, víamos a amabilidade das pessoas e mesmos com aqueles com quem que era difícil entendermo-nos devido à barreira da língua a conversa ia fluindo num ambiente sempre acolhedor para o forasteiro.
E depois a cidade, cujas expectativas à partida não eram muitas para além da sua famosa catedral e do conhecido rio Reno. Pois mesmo a cidade me surpreendeu: a catedral, com os seus seis milhões de visitantes por ano, é fantástica, mas em termos monumentais Colónia não fica por aqui, nomeadamente em relação à arquitectura religiosa com as suas doze igrejas românicas cuja monumentalidade é apenas ofuscada pela grandeza da catedral. Há também museus a não perder, onde curiosamente se podem tirar fotografias (!), dos quais vou apenas citar um, não por ser o mais importante concerteza, mas pela sua peculiaridade que é o museu Farina, berço da universalizada água de colónia que ainda é hoje produzida e convenhamos tem um cheiro bastante agradável.
E há também o parque da cidade, mistura de lagos, jardins e pequenos bosques, onde se respira tranquilidade, junto á mais antiga universidade alemã, que fica mesmo ali ao lado, compartilhando com a cidade e os seus habitantes e visitantes aquele pedaço de natureza.
Vamos finalmente ao estranho e ininteligível título desta minha crónica – eichhörnchen – ou seja, esquilo em alemão que cientificamente é conhecido como sciurus vulgaris. E porquê? Porque durante a minha agradável estadia naquela aprazível cidade alemã, estando eu a tomar o pequeno almoço, olho pela minha janela e vejo no parque fronteiro ao hotel, junto a uma árvore, um esquilo, que convenhamos não é um animal que estejamos habituados a ver nas nossas cidades, a deambular por ali. Foi uma visão magnífica que me vai ajudar a lembrar de Colónia, com carinho…

OSTAGADURA: s. f.


Voltando, após algum tempo de descanso, ao vocabulário português e, baseando-me como sempre no Grande Dicionário da Língua Portuguesa de 1981, vou-me agora debruçar sobre uma palavra que me ouvi ou li já não sei onde e que procurei aprofundar o seu significado - Ostagadura. Ora, no referido dicionário vem: lugar da verga onde se fixam as ostagas. Não percebi bem e por isso fui ver ostagas. Ostaga, s. f. (do cast. ostaga): o cabo que serve para içarou arriar as vergas ao comprimento do seu mastaréu; este cabo, vai gornir num moitão que para esse fim existe pela parte de cima da pega do mastaréu, vindo depois, solteiro, dar volta na mesa de malaguetas do respectivo mastro; há dois cabos destes em cada verga, um por cada borda do mastro. Como ainda não estava esclarecido, fui ver o que era gornir. Gornir, v. tr. passar um cabo pelos gornes do poleame; enrolar o cabo na saia do cabrestante. Tentei então ir a gorne. Gorne, s. m. (do ital. gorna): abertura com roda feita em qualquer parte para passar um cabo de laborar. Decididamente não estava a ver a coisa e tive de me socorrer de uma imagem para não me deixar levar pela imaginação.

Tuesday, December 04, 2007


Da minha janela vou agora até Valência, que vale a pena visitar


DA MINHA JANELA

Afinal onde está o rio?

Da minha janela, vejo agora, do outro lado da rua um reclamo luminoso que diz Torrié, o café. Não sei porquê isto faz-me lembrar Espanha e, a última vez que passei a fronteira virtual entre os dois países ibéricos foi para participar, como convidado em Valência, no I Congresso Ibérico de BAHA (um tipo particular de prótese auditiva).
À margem das sessões de trabalho fomos levados numa pequena visita guiada à cidade, que por sinal é bem grande e uma coisa que me deixou curioso foi atravessarmos várias vezes um rio, de uma margem para a outra, através de diversas pontes, mas um rio que não tinha água. Em vez de água, havia jardins, campos de jogos, pistas para desportos radicais, ciclovias, museus, auditórios ao ar livre, passeios e uma infinidade de outras coisas, algumas até com água (ou não estivéssemos nós num rio), o que me levou a perguntar: afinal onde está o rio?
- Ah, o rio! – foi-me respondido com espanto - não sabe? Como tinha pouca água, por um lado, e por outro como causava regularmente grandes inundações (o que parece contraditório, mas era a realidade) há muitos anos os valencianos desviaram toda a sua água para um novo canal fora do perímetro urbano abrindo assim um enorme espaço que atravessa toda a cidade de Valência e que permite a realização de actividades desportivas, lúdicas, culturais ou simplesmente ambientais.
E posso dizer que a ideia é no mínimo original, mas é um pouco estranho, pelo menos para quem não está habituado, passar uma ponte sobre um rio (ainda nomeado em muitas delas) e em vez de água, barcos ou talvez mesmo ilhas, ver árvores, ruas, balizas, casas e outras coisas de forma difícil de nomear e sobre as quais me vou debruçar um pouco, já a seguir.
É que seguindo o curso do que já em tempos foi o rio Túria, quase ao chegar à foz, o seu leito alarga-se e surge à vista de todos, como se de gigantes barcos se tratassem, uma série de enormes edifícios de cor branca, com formas de aspecto arredondado, elaborado, suavizado ao olhar e, em alguns casos manifestamente fantásticas, em todas as acepções desta palavra. Trata-se da futurista Ciudad de las Artes y las Ciências, a mais arrojada intervenção urbanística da cidade feita pela mão de mestre do arquitecto Santiago Calatrava (que também desenhou a Gare do Oriente em Lisboa), filho da terra (nasceu e viveu em Benimamet, uma pequena povoação próximo de Valência), onde se erguem edifícios de aspecto futurista, parecendo retirados de um filme de ficção científica.

Vale a pena visitar e ver a calma e tranquilidade que nos transmitem aquelas verdadeiras obras de arte que encerram dentro de si por exemplo, o Museu das Ciências Príncipe Felipe, o Palácio das Artes ou o Parque Oceanográfico – uma autêntica cidade submarina com 80.000 m² - e cujo conjunto se funde numa imagem de grande beleza visual. E para quem não tiver a oportunidade de visitar Valência ao vivo, as novas tecnologias permitem fantásticas viagens virtuais que aconselho vivamente a experimentarem pois certamente não se irão arrepender.
E alguns, menos avisados, irão perguntar como eu:
- Afinal onde está o rio?

"A ciência desenha a onda; a poesia enche-a de água"

Teixeira de Pascoaes

Monday, December 03, 2007




Depois de ter ontem iniciado a publicação do meu bloco de crónicas Da minha janela, junto hoje mais uma história portuguesa.




DA MINHA JANELA III

Delicadezas de boca

Neste período do final de um ano e início do seguinte é costume as pessoas juntarem-se e festejarem das mais variadas formas.
O ano passado sucedeu-me uma coisa curiosa que foi o saborear a requintada e inspiradora cuisine de degustação, moda que se tem apossado de uma cada vez maior quantidade de restaurantes portugueses. Nestes programas de degustação, encontramos normalmente pratos excepcionais e esquisitos (como diriam os nossos amigos espanhóis), confeccionados e elaborados por um Chef famoso e cuja escolha dos ingredientes visa transformar a dita refeição numa experiência gastronómica realmente inesquecível.
Mas o que quer dizer afinal degustação? O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado de 1987 diz que vem do francês, dégustation, relacionado com o verbo déguster e este do latim degustāre e que significa: provar, apreciar, saborear. Já o Grande Dicionário da Língua Portuguesa também com coordenação de José Pedro Machado de 1981, fala assim de degustar: apreciar com atenção ou prazer especial o gosto de, para lhe avaliar as qualidades; provar; saborear. Falam os entendidos, que se trata de cozinha francesa com um toque português, seja lá o que isso for.
Ora eu compreendo que se faça uma degustação de vinhos ou até de vinhos e queijos ou mesmo de azeite e pão, agora um menu completo de degustação, especialmente quando isto nos acontece dois dias seguidos, em terras de Viriato desde a Serra da Gralheira até à própria Serra da Estrela, terras da vitela, do cabrito, dos rojões, do leite-creme e dos pastéis de Vouzela, acho demais!
Mas foi isso mesmo que me aconteceu, o que significa que em apenas duas refeições (de degustação) estive sentado, seis horas á mesa. Isto é bom, por exemplo, para as pessoas conversarem, mas para isso acontecer não é preciso estarmos tanto tempo à espera de tantos pratos que, de tão grandes, quase não se lhes vê o conteúdo. Por outro lado tem também alguns inconvenientes e desde logo, se estivermos com crianças as coisas tornam-se muito complicadas para elas, apesar da grande vantagem que têm em relação aos adultos no que diz respeito à refeição pois os seus menus não são de degustação, são de comida (que inveja que eu tive daquele prato das crianças com um fantástico bife de lombo grelhado com arroz branco enquanto eu me “banqueteava” com um faisão com fois-gras, gratinado de batata, pêra e redução de Porto)!
Uma coisa engraçada que podem ter estes menus de degustação é o chamado Amis-bouche ou Amuse bouche e eu tive oportunidade de experimentar nesta categoria, um creme de ervilhas com tártaro de bacalhau; mas o que são estas antes-da-entrada que eu traduzirei livremente por delicadezas de boca? Provavelmente são para nos deixar com água-na-boca e não é que deixam mesmo; neste caso particular, o creme de ervilhas ocupava apenas parte daquilo que poderia ser uma chávena de café e o tártaro de bacalhau tinha cerca de 0,5 centímetros quadrados… Foi como se nos servissem uma tapa no meio de uma travessa!
Mas há um pequeno e direi eu, não negligenciável inconveniente nestas tapas servidas em travessas; é que na degustação é suposto envolvermos os nossos sentidos da visão, do gosto e especialmente do olfacto e é aqui que a porca torce o rabo porque a quantidade de comida que nos é apresentada, apesar do seu aspecto visual e do gosto requintado, não nos permite estimular convenientemente o olfacto ‚ o sentido principal da degustação. Isto acontece porque grande parte do que gostamos, na realidade, simplesmente o cheiramos e aqui não temos hipótese de cheirar grande coisa. O olfacto é um sentido de alerta e, também, de imenso prazer. Trata-se de um sentido muito fino: a sensibilidade olfactiva é dez mil vezes superior à do gosto, mas como no ser humano este sentido perdeu ao longo da evolução da espécie algumas qualidades quando comparado com outros animais é preciso uma maior quantidade de estímulo para se obter o mesmo prazer, no que à comida diz respeito.
Não acabemos com o prazer da nossa cozinha portuguesa!
Por isso, não nos deixemos afrancesar e travemos esta terceira invasão francesa em forma de culinária minimalista.
Vivam a vitela, o cabrito, os rojões, o leite-creme e os pastéis de Vouzela!

Sunday, December 02, 2007


DA MINHA JANELA II

O traço de Siza, a mão de Deus!
Parte II: A casa de Deus é a casa dos homens!

No Domingo fui ao Marco! (continuação)
Depois de chegar e encontrar, afinal sem grandes dificuldades, a Igreja de Santa Maria, juntou-se o grupo para o repasto que haveria de preparar a visita tão aguardada.
Lá nos dirigimos nós para O Plátano, onde nos esperava um bacalhau e umas postas de vitela, regadas com o verde tinto da região ou com um Douro, mais autêntico, para quem o desejasse. Durante o almoço foram-se lançando algumas interrogações sobre aquela Igreja tão peculiar, que estávamos prestes a conhecer, tendo como pano de fundo a mensagem e as ideias de Teixeira de Pascoaes, um homem do Marão que, entre outros pensamentos disse “a morte é a pessoa feminina de Deus” ou “existir não é pensar: é ser lembrado”… E foi com os pensamentos de Pascoaes que, terminado o lauto repasto, nos dirigimos para a Igreja de Santa Maria., sob o sol escaldante de um domingo de Abril.
Ao chegar junto à Igreja, juntámo-nos à sua sombra, no jardim que está separado por duas colunas, do átrio que dá acesso à casa mortuária, que fica na continuação do mesmo jardim e do corpo da Igreja, desde logo em harmonia. Como a Igreja só abria às três horas e eram só duas e meia, por ali começámos a nossa visita. O jardim está dividido por um caminho empedrado, em duas partes: uma arranjada, bonita e organizada e outra parecendo um matagal; logo aqui vemos a divisão entre a ordem e o caos, levando esse caminho ao claustro, pátio interior que se atinge ultrapassando simbolicamente duas colunas rectangulares e depois duas colunas redondas. Ali chegados, a cota muito mais baixa do que o edifício da Igreja cria a sensação de estarmos num subterrâneo, num lugar de mistério, inspirando à meditação e recolhimento, que é acentuado pela frescura e pelo murmúrio da água que cai, mesmo em frente ao óculo do espaço do velório, para um pequeno lago. Outro elemento nos chama também a atenção, apontando ao alto, subindo com o edifício e a escada que conduz à entrada superior e parecendo puxar a terra para o céu ao mesmo tempo que atrai o céu para a terra: o cipreste!
Estávamos nós a apreciar as doutas explicações do nosso guia quando, um dos elementos do nosso grupo, que se havia afastado um pouco, regressa com um grupo de jovens de aspecto estrangeiro e que se começaram a juntar a nós:
- Olha, vais ter que dizer também qualquer coisa em inglês, pois estes rapazes são estudantes de arquitectura de Budapeste, na Hungria e acabaram de fazer 3.000 quilómetros para te ouvir falar, ou melhor para ver a Igreja falar! Nessa altura um casal de espanhóis também já se tinha juntado ao grupo e ia ouvindo Siza falar pela boca do Pedro (o nosso douto e letrado guia).
Entretanto já tinha passado meia hora e fomo-nos então dirigindo para a entrada da Igreja, subindo as escadas exteriores, acompanhados pelo cipreste e depois contornando a sua fachada noroeste, onde se destacam os enormes janelões superiores, cinco, dos quais apenas três (como vimos mais tarde) têm abertura para o interior.
Eis-nos chegados à fachada principal da Igreja, onde se destaca a enorme porta, alta, nobre, com um enorme peso na fachada do edifício. Transposta esta, entramos no lugar que Deus habita e deparamo-nos com a tranquilidade, a ordem e a luz, luz à altura do olhar e à altura da alma, como tão bem o soube ver e escrever o Padre Nuno Higino sobre a “sua” Igreja. É uma Igreja despojada de adereços supérfluos, onde cada coisa está no seu sítio duma forma natural, no seguimento das recomendações do Concílio Vaticano II, com o traço de Siza (seguramente) pela mão de Deus.
Na parede à direita da nave destaca-se uma longa fresta horizontal, à altura do homem, virada para a cidade e para as montanhas ao longe, fazendo a ligação com o mundo material. À sua frente encontra-se a parede curva, onde se abrem em cima os três janelões, que entrevíamos de fora, com uma escala menos humana e remetendo para o alto, para o transcendente.
Chegados ao presbitério, este encontra-se três degraus acima da nave, numa relação muito estreita e comunicante.
Haveria muito mais para contar e lembrar da Igreja de Santa Maria, mas vou apenas falar de dois elementos fundamentais no conjunto: a imagem de Nossa Senhora e a cruz. A Nossa Senhora está colocada do lado direito no primeiro degrau entre a nave e o presbitério e virada para a cruz que se encontra ao fundo, do lado direito do altar. A colocação de Nossa Senhora no primeiro degrau não foi ao acaso (nada ali parece ter sido deixado ao acaso, pois como disse Siza: “com o sagrado não se brinca”), pois assim encontra-se ao lado dos homens, mas elevada a uma particular dignidade.
Finalmente a cruz, que não encontrámos lá fora, tem a forma de um tau grego, colocada lateralmente, voltada para o altar e para a Mãe, mais ao longe, tornando o altar o centro do espaço. A cruz de quatro metros de altura, dignamente revestida a ouro, não apresenta o Cristo de uma forma óbvia, mas quando olhamos para ela parece-nos vê-Lo lá…
O tempo vai passando sem que demos por isso e a Igreja começa a encher-se de gente de todo o mundo para ver a obra de Álvaro Siza com certeza, mas saímos daqui, com a perfeita noção de que em cada traço de Siza estava a mão de Deus!

" Existir não é pensar: é ser lembrado."
Teixeira de Pascoaes

DA MINHA JANELA

O traço de Siza, a mão de Deus!
Parte I: O mamarracho!

No Domingo fui ao Marco!
O Marco de Canavezes é uma pequena e simpática cidade espreguiçada à volta do rio Tâmega, abraçando com o olhar a serra da Marão… ao longe! Pois, este domingo fui ao Marco e a pergunta lógica que inevitavelmente se segue, será: o que fui eu fazer ao Marco? Eu próprio, há umas semanas atrás, se me dissessem que ia ao Marco não iria acreditar, pois não me lembrava de nada que me pudesse fazer ir a uma terra que até então não me dizia nada. Mas o certo é que fui desafiado para integrar um pequeno grupo que estava a preparar uma visita guiada à Igreja de Santa Maria, para aquele domingo. Não podia recusar aquele convite pelos argumentos que se me apresentavam: primeiro é uma das obras emblemáticas do renomado (mais no estrangeiro que na própria pátria) arquitecto Álvaro Siza Vieira, galardoado em 1992 com o prémio Pritzker (o Nobel da arquitectura) e com a qual (igreja) ganhou um prémio internacional onde também concorria, pasme-se, o museu Guggenheim de Bilbau! A segunda razão era a curiosidade de ver como um assumido ateu tinha desenhado uma igreja, hoje, mundialmente famosa; em terceiro lugar porque eu próprio não era um adepto fervoroso de Álvaro Siza e a ideia que tinha daquela igreja, era a de um verdadeiro “mamarracho”; e por último porque, como em qualquer bom roteiro cultural, estava incluída a vertente gastronómica, com um almoço no restaurante típico O Plátano, do Marco.
Juntados todos os ingredientes, lá me fui preparando mentalmente para a visita; alguns dias antes, ao passar no meu local de trabalho por um senhor que eu sabia que era do Marco, disse-lhe:
- Ó Miguel, sabe onde é que eu vou no domingo? Vou à sua terra, disse – sem esperar pela resposta, que surgiu em forma de pergunta.
- Mas que raio é que o doutor vai fazer ao Marco? – Retorquiu admirado.
- Veja lá, vou visitar a igreja do Siza…
Sem me deixar continuar, atirou:
- Ó doutor, aquilo é um mamarracho que para ali está, não tem nada para ver.
- Deixe estar Miguel, a visita também inclui um almoço e parece que a ementa não é nada má, por isso, pelo menos salva-se a comida.
Sem me responder, continuou, ainda a pensar que raio iria fazer ao Marco, ainda por cima quando se previa um dia de grande calor para domingo.
E assim foi, aquele domingo nasceu quente e o calor aumentava conforme nos íamos afastando da costa cálida e nos embrenhávamos no interior do distrito do Porto. Chegando ao Marco, surgiu a interrogação:
- Como é que damos com a igreja?
- O melhor é perguntar a alguém!
- Não vale a pena, há-de haver alguma indicação…
E realmente, ao circundarmos a primeira rotunda após a bonita travessia do rio Tâmega, lá vimos uma tabuleta estilizada onde se lia Igreja de Santa Maria.
- Estás a ver, é fácil!
- Vamos ver…
E continuámos a andar até chegar a nova rotunda numa zona mais central da cidade, mas aí já não havia tabuleta. Vimos então uma série de pessoas que vinham aparentemente todas do mesmo sítio, vestidas de modo formal, apesar do dia quente, quase de Verão e pensámos ao mesmo tempo: a esta hora, num domingo, toda esta gente…devem vir da missa, logo, a igreja deve ser por aqui! Foi então que ouvimos chamar:
- Venham, é aqui em cima!
Quem nos chamava era alguém do nosso grupo, que nos tinha reconhecido e apontava, triunfal para um edifício todo branco, quase liso e quase sem janelas que se encontrava atrás dele e para o qual já tínhamos olhado, sem ver que o que estava ali era… a Igreja de Santa Maria!
E lá nos fomos dirigindo para junto daquele edifício aparentemente frio, austero, grave, rude, sem ornatos e que nada se parecia com a ideia de igreja que todos nós tínhamos interiorizada.
- Vamos almoçar, já estamos todos; a visita à igreja começa às duas e meia, agora é tempo de alimentar o estômago, para depois melhor iluminar a alma! – Ouvimos alguém dizer, e que nos retirou das ideias sombrias que nos percorriam ao olhar para aquela que diziam ser umas das grandes obras de Álvaro Siza.
E lá nos dirigimos para o restaurante, sem saber o que nos esperava daí a pouco mais de uma hora, quando o traço de Siza se mostrou aos nossos olhos iluminado pela mão de Deus!
Mas essa revelação fica para um próximo olhar Da minha Janela…