Saturday, March 29, 2008


HALIFAX

No ano passado estive em Halifax, no Canadá. Não sabia onde ficava e verifiquei no mapa que era um dos locais daquele país mais próximo da Europa. No final dos dias de trabalho visitávamos aquela cidade marítima na companhia dos colegas espanhóis que nos acompanhavam na viagem. Numa dessas deambulações sou chamado pelo meu amigo Carlos C., espanhol, para admirar um monumento a um navegador português que se encontrava num pontão, junto ao mar e do qual junto uma fotografia tirada na altura. Tratava-se de um monumento a João Álvares Fernandes(1460-1525), navegador Português, nascido em Viana do Castelo. A curiosidade levou-me a conhecer um pouco da vida deste nosso antepassado, talvez mais conhecido no Canadá do que no seu próprio país. Os navegadorers Portugueses não viajaram só para o sul, mas também exploraram o Atlântico norte. Foram exemplos de exploradores destas terras, João Fernandes (que em 1497 baptizou o Labrador) e Gaspar Corte-Real em 1500. Estas viagens iniciais foram seguidas pela tentativa (infrutífera) de João Alvares Fagundes de fundar uma colónia nessa região, em Newfoundland. Álvares Fagundes recebeu do rei D. Manuel I em 1521 o exclusivo do comércio e povoamento das áreas por si descobertas e que correspondiam a parte do costa nordeste das Américas no que são hoje as províncias marítimas canadianas da Nova Escócia, Labrador e Terra Nova.


No ano de 2000 foi erigido este monumento para celebrar a chegada dos primeiros europeus à Nova Escócia no ano de 1520.



"A perseverança é a mãe da boa sorte"
Miguel de Cervantes


Sunday, March 23, 2008

PALEOETNOLOGIA DE LAFÕES



Da obra "Povos antigos de Portugal - Paleoetnologia do território hoje português" de João e Augusto Ferreira do Amaral (Quetzal editores 1997), retiramos algumas curiosidades relativas a topónimos da região de Lafões. A palavra topónimo deriva dos termos gregos τόπος (tópos), lugar, e ὄνομα (ónoma), nome, literalmente, o nome de um lugar. Vamos a alguns exemplos:


Alcofra al qufra de deserta - Árabe


Vouga , vauga ,vauca , uauga , ouákona de torto - Antigo Europeu
Adsamo (Adçamo) , ad de em ou muito e samo igual a verão - Celta


Cambarinho ,cambar , camari de quinta do camaro (cambarinus - antropónimo Celta)


Caramulo , eminência - Antigo Europeu


São Macário , magalio , magalus -Celta



Cambra , calambria , calambriga Celta (Briga igual a colina, cabeço, povoação, castelo no alto dum monte)


Sul ,teónimo Celta


Conclusão: os Celtas andaram por aqui!



"A História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo"
Napoleão Bonaparte

Thursday, March 20, 2008


CIRCUNCISFLÁUTICO III


Voltemos ao tema das amígdalas, que vá-se lá saber porquê, me tem interessado desde já alguns tempos... Falo, convém salientar das amígdalas cerebelosas cuja ablação levará ao recém denominado Síndrome do Circuncisfláutico. É curioso que uma parte tão importante do nosso cérebro seja desconhecida da maior parte das pessoas. a amígdala é um um centro do sistema límbico (cérebro primitivo) que é o ponto central do sistema endócrino e vegetativo. A amígdala é pois especializada nas questões emocionais funcionando como um arquivo da memória emocional; a vida sem amígdalas é uma existência sem significado pessoal e sem afecto: a paixão depende dela assim como a lágrima (excusiva do ser humano). Na arquitectura cerebral a amígdala é também como uma central programada para enviar chamadas de urgência: por exemplo ao mínimo sinal de medo a amígdala envia mensagens que setimulam a secreção de hormonas que desencadeiam a reacção de combate ou fuga e mobiliza os centro de movimento e o sistema cardiovascular; outros sinais vão para a secreção de adrenalina, com os efeitos conhecidos de todos. A amígdala é pois uma sentinela das nossas emoções. Podemos considerá-la como o centro da inteligência emocional tão em moda na actualidade. Estimulemos as nossa amígdalas e não nos deixemos tornar circuncisfláuticos, num país cada vez mais circuncisfláutico.
"A emoção é sempre nova, mas as palavras usam-se desde sempre: daí, a impossibilidade de exprimir a emoção"
Victor Hugo


Monday, March 10, 2008


CIRCUNCISFLAUTICO II


Estava eu a acabar de colocar no ar, ou na rede, ou onde quer que seja o primeiro circuncisfláutico, quando surgiu na minha frente a possível e qiçá provável origem do circuncisflautismo. E tem tudo a ver com as amígdalas, ou para ser mais correcto, com a falta delas. Desenganem-se aqueles, que serão concerteza alguns dos que lêem estas linhas (se é que alguém lê esta coisa), que isto é um problema para ser resolvido pela especialidade de Otorrinolaringologia; pois não é: e porquê? Como diria o outro, amígdalas há muitas: as palatinas, as linguais, as faríngeas e last but not the least as menos conhecidas amígdalas cerebelosas. No latim amygdala, do grego antigo αμυγδαλή, amygdalē, significa "amêndoa", "tendão" ou ainda corpo amigdalóide (do latim corpus amygdaloideum) refere-se a qualquer órgão anatómico em forma de amêndoa. Ora as amígdalas cerebelosas são grupos de células nervosas que, juntas, formam uma massa esferóide (amigdalóide) de com cerca de dois centímetros de diâmetro, situada no lobo temporal do cérebro de grande parte dos vertebrados, incluindo o homem. Esta região do cérebro faz parte do sistema límbico (cérebro primitivo) e é um importante centro regulador do comportamento sexual e da agressividade. É também importante para os conteúdos emocionais das nossas memórias. O mau funcionamento ou a remoção bilateral das amígdalas cerebelosas origina o Síndroma de Kluver-Bucy, caracterizado pela ausência de respostas agressivas, pela cortesia exagerada, pela oralidade e pela hipersexualidade; os indivíduos perdem a capacidade de avaliar uma situação de perigo, ficando impossibilitados de apresentar sinais de medo ao serem confrontados com estímulos adversos. Os indivíduos tornam-se mais dóceis, apresentam baixos níveis sanguíneos das hormonas do stress e apresentam menor probabilidade de desenvolverem úlceras e outras doenças induzidas pelo mesmo. Uma outra consequência é a regressão à fase oral, levando o indivíduo a colocar na boca tudo o que encontra, mesmo coisas completamente inadequadas ao consumo humano. Creio que esta Síndroma de Kluver-Bucy poderia também chamar-se Síndroma do Circuncisfláutico. Se não querem ficar circuncisfláuticos, não deixem que vos tirem as amígdalas... cerebelosas!


"São maus descobridores os que pensam que não existe terra porque só podem ver o mar"
Francis Bacon

Monday, March 03, 2008



CIRCUNCISFLÁUTICO





Desde logo é uma palavra fora do vulgar, que o Dicionário da Língua Portuguesa HostDime define como: adj Hum 1 Que fala rebuscadamente; amaneirado, pretensioso. 2 Misterioso. 3 Sorumbático. Ora parece-me que amaneirado, pretensioso, misterioso e sorumbático não são exactamente a mesma coisa e em alguns casos até parece não ligarem muito bem. Quererá então circuncisfláutico significar tudo isto junto; se assim for será dificil encontrar uma imagem para o caracterizar. Que tal esta?
"Não há beleza perfeita que não contenha algo de estranho nas suas proporções"
Francis Bacon

Saturday, March 01, 2008


ATLÂNTIDA


O mito da Atlântida é um dos que mais paixões tem gerado ao longo dos anos. A mitologia grega diz que Atlântida foi uma poderosa nação cujos moradores eram tão corruptos e gananciosos que Zeus decidiu destruí-la, através de uma enorme inundação. A primeira descrição da Atlântida foi feita na obra "Timeu e Crítias" de Platão (370 A.C.) e, desde então, inúmeras hipóteses têm sido especuladas sobre a sua localização, que segundo Platão ficava para lá das "Colunas de Hércules" (estreito de Gibraltar); alguns historiadores defendem que se tratava não só de uma cidade mas de um continente soterrado no meio do Atlântico, tendo sido proposto que as ilhas dos Açores são os pontos mais altos do que já foi o continente perdido da Atlântida.


Acabei agora de ler um livro muito interessante, chamado "A Terceira Atlântida - As raízes da tradição atlante nos Açores" de Fernanda Durão Ferreira, editado pela Zéfiro em Novembro de 2007. No prefácio da obra, baseada apenas em factos reais e por isso nada especulativa, Fonseca e Costa escreve: "No meio do Oceano Atlântico, numa ilha onde os touros são lidados tal como Platão conta quando descreve a Atlântida, a autora teve notícias do antigo império de Poseidon. Procurados desde sempre por arqueólogos, investigadores e aventureiros, os vestígios do continente perdido estão, afinal, presentes no dia-a-dia dos açorianos. Como uma plataforma no tempo, a Ilha Terceira manteve vivos durante muitos séculos alguns dos usos e costumes dos atlantes descritos pelo filósofo grego."


Não é a primeira vez que os Açores são apontados como os antigos cumes do continente desaparecido: quem não se lembra do Enigma da Atlântida (1955), aventura em banda desenhada de Blake e Mortimer de Edgar P. Jacobs que coloca a Atlântida na ilha de São Miguel. Qualquer dia volto a este tema.


"A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos"



Saturday, February 23, 2008


ARQUEOLAFÕES IV

Cova do Lobisomem


Só o nome dá curiosidade de conhecer e eu conheço muito bem pois não me canso de a visitar ano após ano e cada vez mais me intriga a sua localização no tempo passado, relacionado com a sua utilização. Quem a utilizou, e em que tempos(?), é pergunta que não temos visto respondida. Aristides de Amorim Girão nas suas Antiguidades Pré-Históricas de Lafões de 1921, faz uma excelente descrição desta gruta que passo a citar: "... na margem direita do rio (Couto), cerca de 200 m. a montante da torre medieval (de Cambra) ... encontramos uma caverna unteressantíssima, do período paleolítico, conhecida pelo nome deveras sugestivo de Cova do Lobisomem, onde si vera est fama, se recolhe 0 fantasma a descançar das longas fadigas que pasa percorrendo sete freguesias numa noite... A situação da caverna em relação ao rio e o facto de ficar na parte externa duma curva deste, onde a erosão é portanto mais activa, levam a crer que ela tenha sido em parte escavada pelas águas; mas é na sua máxima parte artificial. Consta de uma galeria ou corredor cuja entrada mede 2,40 m. de altura por 2 m. de largura; vai estreitando gradualmente para o interior, conduzindo a uma vasta câmara de forma oval irregular por um estrangulamento onde a custo cabe um homem de pé, pois não tem de largura mais de 0,40 m., tendo aliás 2,20 m. de comprimento. A câmara com cerca de 5 m. de comprido por2,50 m. de largo e outro tanto de alto, pode comportar dez homens bem à vontade. O comprimento total, incluíndo a galeria e câmara, regula por 18m. Toda a caverna foi aberta em saibro muito rijo, quási tão consistente como o granito, tendo na parte superior da câmara um pequeno buraco totalmente tapado por uma cobertura de calhaus rolados ligados por um cimento arenoso e argiloso muito duro e incontestavelmente produto da indústria humana; o fundo está completamente obstruído de areia e calhaus rolados." É a melhor e mais completa descrição da Cova do Lobisomem que eu conheço, apesar dos seus 87 anos de idade. Em Vouzela: A Terra, os Homens e a Alma (2001), faz-se uma referência curiosa à Memória Estadística de Lafões (1823) do Dr. Joaquim Baptista: "... Perto do rio do Espírito Santo em Cambra, há uma escavação muito longa em terreno de aspecto aurífero, e os mais sensatos crêem ser cava subterranea, que de alguma fortaleza guiava ao rio, a fim de se fornecerem de agoa os assistentes no Castello. Quanto a mim, pelo aspecto do terreno, direcção e extensão da Cava, suponho serem galerias de mina antiga do tempo dos Fenícios, Cartagineses ou Romanos". Na Carta Arqueológica do Concelho de Vouzela (1999), tal como em Vouzela:Património Arqueológico; sítios e rotas (2005) não é feita quaquer referência a este sítio. Porquê?... Fica a pergunta e já agora uma fotografia em que se pode ver a entrada, a galeria e ao fundo a câmara.

"Existem coisas que, para as saber, não basta tê-las aprendido"

Séneca

Tuesday, February 19, 2008


ESMERILHAR

Voltando ao nosso vocabulário, surge hoje uma palavra que ouvi no barbeiro, ao falar com um cliente a quem fazia a barba perguntando-lhe se quando fazia a barba em casa a pele se costumava esmerilhar. Fiquei a pensar nesta palavra e recorrendo mais uma vez ao Grande Dicionário da Língua Portuguesa, fiquei mais baralhado; dizia o seguinte: Esmerilhar, v. tr. O m.q. esmerilar. Esmerilar, v. tr. Polir ou despolir com esmeril.//Fig. Aperfeiçoar; pesquisar.//Esquadrinhar. Continuava intrigado e tentei procurar quaquer coisa na Internet e no dicionário inFormal alguém definia esmerilhar como "dançar tão agarradinho com se os dois fossem um só". Continuei a procurar e encontrei outra definição: dar os retoques finais. Mas estava ainda longe do esmerilhar do barbeiro. Entretanto ia correndo o google e a certa altura fez-se luz quando ao falar de ferramentas eléctricas para esmerilhar surgiram os significados de polir ou lixar. Ora aqui estava a resposta à minha pergunta, esmerilhar è uma forma polida de dizer lixar. Nas minhas pesquisas encontrei ainda o termo esmerilhar o bimbo que será um termo popular para a cópula tão invulgar como por exemplo esmurrar a cotovia, agasalhar o croquete, meter o invertebrado ou espocar a silibina (vá-se lá saber porquê!).

Atenção: a foto mostra uma máquina de esmerilhar e não de barbear; não tentem fazer a barba com aquilo...

Devo ter uma enorme quantidade de inteligência; às vezes até levo uma semana para a colocar em movimento.

Wednesday, February 06, 2008





CAMBALACHO

Esta também não encontrei no dicionário, mas aqui a razão é simples. O termo cambalacho foi popularizado pela novela brasileira com o mesmo nome, significando cambalacho golpada, logro ou como dizem os brasileiros trambique. Foi uma das novelas de maior sucesso no Brasil, onde passou em 1986. A novela foi também exibida em Portugal, pelo que o termo cambalacho atravessou assim o Atlântico.

Cambalacho em Portugal é nome de jogador e treinador de futebol. Uma recente sondagem aos adeptos do Boavista FC, considera Osvaldo Cambalacho um dos treinadores mais importantes que passaram pelo clube, talvez porque na década de 60, em que o clube andou por divisões secundárias, mais concretamente em 1966, foi ele o treinador da subida à primeira divisão num dramático jogo em Fafe, onde o Boavista empatou depois de ter vencido no Bessa por 2-1.

Osvaldo Cambalacho, como jogador foi campeão nacional no FC Porto.


"Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem"
P. António Vieira



















Wednesday, January 30, 2008




PAREIDOLIA




Voltamos ao vocabulário, e esta não encontrei no dicionário, mas existe.

A pareidolia é um tipo de ilusão ou percepção equivocada, em que um estímulo vago ou obscuro é percebido como algo claro e distinto. Por exemplo, quando alguém vê o rosto de um homem na lua, animais ou caras na forma das nuvens ou uma cara de um velho num qualquer afloramento granítico.
Em circunstâncias normais, a pareidolia fornece uma explicação psicológica para várias ilusões baseadas na percepção sensorial. Por exemplo, explica vários avistamentos de ovnis ou a audição de mensagens sinistras em discos tocados ao contrário assim como numerosas aparições. Em circunstâncias clínicas, alguns psicólogos incentivam a pareidolia como um modo de entender o paciente. O mais famoso exemplo desse tipo de procedimento clínico é o teste de Rorschach.
Pareidolia é a tendência do cérebro humano em reconhecer padrões familiares, tal como rostos.
Obtido em "http://pt.wikipedia.org/wiki/Pareidolia"

Pareidolia deriva etimologicamente do grego eidolon (figura ou imagem) e com o prefixo par (junto a) e é um fenómeno psicológico consistente em que um estímulo vago e aleatório é percebido erroneamente como uma forma reconhecível.

"Frecuentemente el ser humano al observar un objeto, una nube o una mancha, tiende de manera inconsciente, a reconocer en estos objetos con formas caóticas, patrones asimilables a objetos conocidos. Este fenómeno es conocido como pareidolia". Bustamante, 2007. http://rupestreweb.info/hierofania.html
"Diversas obras rupestres y sitios arqueológicos a través del mundo, presentan características que permiten asociarlos con el fenómeno denominado pareidolia . En ellos, accidentes del paisaje, rocas, etc, presentan formas que semejan personas, animales, etc. Parece ser un fenómeno extensivo que podría constituirse tanto en una herramienta de análisis como de contraste de obras y entornos pertenecientes a diversas culturas a través del mundo". Bustamante. http://www.rupestreweb.info/pareidolia2.htm
A apofenia permite compreender o mecanismo psicológico mediante o qual determinadas formas sugerem ao observador relações que poderiam explicar em parte a origem de lendas e cosmogonias de diversas culturas.
Na foto encontra-se o caso mais famoso de pareidoloia: a cara na região de Cydonia Mensa em Marte fotografada pela sonda Viking 1 Orbiter.

"Justiça extrema é injustiça".
Cícero



ARTEFACTO

Artefacto, s.m. (de arte+facto). Objecto, obra de arte, ou qualquer trabalho produzido pelas artes mecânicas. Artefacto, adj. Fingido com arte ou astúcia; artificial. São estes os dois significados que encontro no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de 1981, coordenado por José Pedro Machado.

Mas, pelos vistos há mais:
Um artefacto cultural é um objecto feito pelo homem e que fornece informações sobre a sua cultura. O artefacto pode mudar ao longo do tempo. A classificação sobre quando, como e porque ele é usado como uma cultura também pode mudar com o tempo, dependendo de novas descobertas.
O uso do termo artefacto engloba o tipo de artefacto arquelógico, que é recuperado num sítio arqueológico; no entanto, os objetos criados pelo homem na sociedade moderna também são artefactos culturais. Por exemplo, em um contexto antropológico, uma televisão é um artefacto da cultura moderna.

Em arquelogia, o artefacto é qualquer objecto feito ou modificado pelo homem, que dê evidência da actividade e da vida desse homem. Muitas vezes, tais artefactos foram recuperados mais tarde pelo esforço de alguns arqueólogos.
Exemplos de artefactos podem incluir itens tais como ferramentas de pedra ou ruínas de construções. Também incluem cerâmica, vasos, objectos metálicos e elementos de adorno pessoal, como jóias e de vestuário e outros.

Artefacto em ciências da computação, é o produto de uma ou mais atividades dentro do contexto do desenvolvimento de um software ou sistema.

Artefacto em ciências experimentais, é um resultado de uma experiência que não poderia acontecer naturalmente e que foi causado por um método de experimentação errado.

Como imagem deixo um dos mais misteriosos e ainda indecifrados artefactos arqueológicos, que é o Disco de Phaistos, datado do final da era de bronze Minóica e que está em exibição no museu arqueológico de Iraklion em Creta, na Grécia. Ainda não há uma interpretação do "texto" do Disco de Phaistos plenamente aceite pela comunidade científica. Ele continua a ser o mais antigo enigma linguístico não decifrado pelo ser humano.

"Triste não é mudar de ideia. Triste é não ter ideia para mudar."
Francis Bacon

Sunday, January 27, 2008


CASTROS

Há algumas semanas passei uns dias pelo Minho e passando na Póvoa de Lanhoso, visitei o célebre roqueiro onde se encontra o castelo, que segundo a lenda, albergou D. Teresa, mãe do nosso primeiro rei, que para aí terá sido desterrada após a derrota na batalha de S. Mamede que nos iria garantir a nacionalidade. Existe outra lenda ligada ao castelo, bem mais tenebrosa: sendo seu alcaide Gonçalves Pereira de Barredo e ausentando-se por duas semanas, quando voltou teraá encontrado a mulher em adultério flagrante com um frade de Bouro, seu confessor. Louco de raiva mandou o alcaide trancar o castelo e deitar-lhe fogo, queimando vivos todos os que lá se encontravam pois os considerava cúmplices do adultério, sabendo o que se passava e sem nada lhe denunciarem...

Mas, lendas à parte lá fomos subindo até ao castelo, passando sensivelmente a meia encosta pelos vestígios do castro de Lanhoso ou "Laginoso", um núcleo de estruturas bem conservadas e sinalizadas, dispondo de uma área de estacionamento e sinalização vertical que disponibiliza informações ácerca do local e uma planta detalhada das ruínas.

Mais acima, ao chegar ao castelo deparamos com um prequeno núcleo museológico, muito bem organizado onde nos foi permitido observar e fotografar o capacete de bronze em excelente estado de conservação, contemporâneo da cultura castreja e que vale a pena observar.

Foi aqui que juntamente com a bibliografia sobre as terras e o castelo de Lanhoso, encontrei uma obra de rara beleza e singularidade por quem se interessa pela cultura castreja. Trata-se do "Guia dos Castros da Galiza e Noroeste de Portugal" editado pela ADRAVE (agência de Desenvolvimento Regional do Vale do ave, S.A.) em Junho de 2006 com uma tiragem de 750 exemplares, integrado no projecto CASTRENOR (Cultura Castreja do Noroeste Peninsular, formada pela Adrave, Universidade do Minho, Câmara Municipal de Monção e Xunta de Galicia). É uma publicação excelente que como dizem os seus autores "tem uma virtude inegável: pela primeira vez podem-se encontrar, numa única publicação, castros de ambos os lados da actual linha divisória entre a Galiza e Portugal. Nesse sentido constitui um avanço importante sobre outras publicações precedentes por explicitar, de forma conjunta, a realidade cultural que, há mais de 2000 anos, esteve presente nos nossos territórios."


"O livro é um mestre que fala mas que não responde"

Platão

Tuesday, January 22, 2008


CONTORCIDO, adj.

(de contorcer). Que sofreu contorção; serpenteado, dobrado. // Que sofreu desvio ou modificação (em sentido próprio e figurado). Como sempre, fui ao Grande Dicionário da Língua Portuguesa de 1981 buscar estes significados, mas pode haver outros. Por exemplo na micro anatomia do rim aquilo que em Portugal se chama tubo contornado proximal (e distal) no Brasil tem o nome de túbulo contorcido proximal (e distal)

CALEIDOCICLOS CONTORCIDOS: O desenho de motivos entrelaçados usados para esses caleidociclos (desenhos periódicos), baseia-se numa rede de rectângulos. Para cobrir o caleidociclo contorcido, sobrepôs-se ao desenho periódico uma rede obliqua de triângulos, de forma que as arestas do topo e da base, assim como as da direita e da esquerda, condissessem uma as com as outras. Os retângulos no padrão original determinam o comprimento das arestas dos triângulos e os seus ângulos de inclinação. Quando girar este caleidociclo contorcido, verá as figuras cambalearem num ciclo infinito.

Tal como os caleidociclos, conhecemos ao longo da nossa vida pessoas oblíquas e contorcidas que cambaleiam pela vida num ciclo indefinido.


"A melhor resposta às calúnias é o silêncio"

Benjamim Jonson

Sunday, January 20, 2008

PAISICAICOI IIACINS





Volto às minhas origens, vamos esclarecer um pouco mais sobre a inscrição rupestre das Corgas Roçadas, no lugar da Torre, freguesia de Carvalhal de Vermilhas, concelho de Vouzela. A sua importância epigráfica foi reforçada em 1997 aquando do II Simpósio Ibero-Itálico de Epigrafia Rupestre que decorreu em Viseu, altura em que "fui" admirado numa visita efectuada pelos participantes no dito Simpósio. Uma das figuras que "me" tem mostrado ao mundo é o ilustre arqueólogo do Centro de Viseu da Universidade Católica, Prof. J. L. Inês Vaz, com algumas comunicações e trabalhos científicos na área da epigrafia na Civitas de Viseu, a que farei referência na pequena resenha bibliográfica, no final deste texto. No recente Inventário do Património Arquitectónico e Arquelógico do Concelho de Vouzela, na referência a Paisicaico diz-se que o seu significado é desconhecido. José d'Encarnação, Prof. do Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra, faz referência a Paisicaico em diversas publicações, como podendo ser uma divindade indígena e assim venerada naquele local. Outras interpretações têm sido aventadas e algumas bem curiosas: fui encontrar aos arquivos do Notícias de Vouzela dois artigos muito interessantes publicados nas edições dos dias 1 de Junho e 16 de Setembro de 1955, com honras de primeira página, já lá vai mais de meio século. Estes artigos faziam referência a uma excursão arqueológica ao Caramulo fazendo referência a Três notáveis inscrições inéditas do concelho de Vouzela; desta excursão faziam parte, como arqueólogos o Prof. Moreira de Figueiredo e a arquitecto Rogério de Azevedo, ilustre Prof. da Escola de Belas Artes do Porto. Na edição de 1 de Junho de 1955 fala-se de uma possível tradução daquelas palavras pelo Prof. Rogério de Azevedo como: ..."Ensina as crianças a lutar contra o inimigo, mesmo descansando. A acção agrada à juventude"... A interpretação de Rogério de Azevedo, publicada já na edição de 16 de Setembro diz ... à falta de caracteres gregos, será assim: PLIS (chrones) IK (anousi) LICH (n) OI PACHI (o) N (e) S... cuja versão dá: "Eis que se aproximam os ávidos glutões mais fartos" ou "Eis que vêm mais fartos os ávidos glutões". Era interessante ter outras opiniões, mais quaisquer que elas sejam Paisicaico será sempre para mim PAISICAICOI IIACINS.








automaticnetwork.com/cm-vouzela/planeamento/Inventário_Patrimonio.pdf

www.educa.jcyl.es/educacyl/cm/images?idMmedia=56108


Divindades Indígenas sob o Domínio Romano em Portugal (Subsídios para o seu Estudo), Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1975 - José d'Encarnação


Inscrições Romanas do Conventus Pacensis - Subsídios para o Estudo da Romanização, 2 volumes, Coimbra, 1984 - José d'Encarnação


Divindades Indígenas da Lusitânia, Conímbriga vol. XXVI, 1987 - José d'Encarnação
Saxa Scripta na Civitas de Viseu: Algumas notas, Máthesis, Viseu 4. João L Inês Vaz
Notícias de Vouzela, Ano XXI, 1 de Junho de 1955
Notícias de Vouzela, Ano XXI, 16 de Setembro de 1955







Tuesday, January 08, 2008




ARQUEOLAFÕES III
Anta pintada de Antelas




A anta pintada de Antelas ou dolmen de Antelas é um dos principais monumentos megalíticos de Lafões e pela suas características únicas de estar toda a sua superfície interior coberta por pinturas rupestres e estar a sua mamoa bastante bem preservada torna-se um monumento ímpar em relação aos seus congéneres. Amorim Girão descreve-a nas suas Antiguidades Pré-Históricas de Lafões, em 1921 assim: ...A antela completa é formada por nove grandes lajes de granito, de aproximadamente três metros de altura. A laje voltada a poente dispõe-se verticalmente sobre oe solo, e as outras, à medida que se encostam umas às outras, vão-se também tornando oblíquas, a ponto de as lajes voltadas a nascente chegarem a formar com o solo um ângulo de cerca de 45º. A secção horizontal, que à superfície é aproximadamente circular, de 1,50 metros de diâmetro, torna-se na base elíptica ou oval, com 3,50 metros na direcção do seu eixo maior; as lajes de forma grosseiramente triangular com o vértice voltado para cima e com uma espessura que regula por 0,20 metros, encostam-se, como dissemos, umas contra as outras, por tal forma que a falta de uma delas comprometeria fatalmente a estabilidade do conjunto. O todo encontra-se, na sua quasi totalidade, envolvido por mamoa formada da terra e pequenas pedras, com cerca de 10 metros de raio... Uma coisa singular notámos nesta antela: as lajes, alisadas na face interna, apresentam uns vivos desenhos em xadrez, a ocre vermelho, estando a tinta perfeitamente conservada, mesmo na parte mais directamente exposta à intempérie... O arqueólogo francês Marc Devignes chama-lhe o Lascaux do megalitismo (a imagem é bonita e aplica-se bem ao monumento e tem um maior significado por ter sido um francês a dizê-lo e mais, a escrevê-lo pois Lascaux fica em França e Antelas em Portugal... Todo o conjunto é interessantíssimo e merece uma visita. Deixo uma fotografia (do autor destas linhas, de 1996) da figura antropomórfica desenhada no esteio da cabeceira a vermelho e negro cuja datação pelo Carbono 14, a situa numa franja entre 3.625 e 3.140 a. C.
"Existir não é pensar: é ser lembrado"
Teixeira de Pascoaes

Monday, December 31, 2007


ARQUEOLAFÕES II


Pedra Escrita


Pedra Escrita em Serrazes, é um monólito granítico com pouco mais de 2,5 metros de altura por 2 metros de largura.
Este monumento pré-histórico, segundo Aristides de Amorim Girão, o grande geógrafo arqueólogo lafonense, poderá ser datado do séc. X a.c.
Um dos mais importantes vestígios de arte rupestre da região de Lafões é composto de vários círculos concêntricos com covinha central e de rectângulos divididos em quadrículas, de difícil interpretação, mas que poderá na minha modesta opinião ter a ver com o culto do sol e da lua e com representações estilizadas do mundo superior e do mundo inferior tão importantes no imaginário e religiosidade dos povos dessa época.

A Pedra Escrita foi classificada como Imóvel de Interesse Público, pelo Decreto nº 35.532, de 15 de Março de 1946. Actualmente, encontra-se protegida simplesmente por um pequeno telheiro, exposta às intempéries e ao vandalismo. Uma placa interpretativa seria interessante!


"O homem foge da sua sombra anterior para a sua luz futura"

Teixeira de Pascoaes

Sunday, December 23, 2007



ARQUEOLAFÕES


Menires do concelho de Vouzela


Em Junho de 2002, após ter lido com todo o interesse um artigo sobre uma breve notícia dos menires de Alvarenga e da Serra da Freita, verifiquei que havia algumas coisas que gostaria de ver esclarecidas, e por isso escrevi, por duas vezes para o Centro de Estudos Pré-Históricos da Beira Alta, mas em nenhuma delas obtive qualquer resposta. Eis o teor da respectiva missiva e as fotografias, para os meus leitores se situarem e darem também a sua opinião.

"Antes de mais, os meus cumprimentos e as minhas felicitações pela existência dessa Associação cultural e científica, que concerteza vela pela investigação, preservação e divulgação do rico património arqueológico da nossa região.
Desde pequeno me interessei pela arqueologia e várias vezes percorri o concelho de Vouzela, primeiro a acompanhar o meu pai e, mais tarde com amigos, ou apenas com as "Antiguidades Pré-Históricas de Lafões" de Amorim Girão, que apesar de terem já 80 anos continuam a ser o mais completo e exaustivo estudo da pré e proto-história da nossa região.
Foi assim com imenso interesse que soube da existência da vossa Associação, esperançado que estou no desenvolvimento e expansão dos estudos pré-históricos não só do concelho de Vouzela (que conheço melhor), mas também de toda a região de Viseu. Por isso muito gostei de ver em "Estudos Pré-históricos" vol.I um interessante trabalho sobre a Casa da Orca, uma das antas do concelho de Vouzela que se encontra num local de excelente envolvência e cuja mamoa está razoavelmente conservada e englobada num conjunto de três mamoas a merecer cuidada investigação. Gostei também bastante do trabalho sobre a estela-menir da Caparrosa. Achei muito interessante todo o vol. III e o artigo sobre o Monumento 2 da Serra de Muna, no vol. VI.
Não gostei, e talvez seja eu que estou errado, de um artigo que vem no 2º volume das Actas das V Jornadas Arqueológicas da Associação dos Arqueólogos Portugueses da autoria de Fernando A. Silva e António M. Silva "Menires de Alvarenga e da Serra da Freita (Arouca, Aveiro)Beve notícia".
Aí se faz notícia, "inédita", da "descoberta de um conjunto de três menires na Serra da Freita e de um outro em Alvarenga, no concelho de Arouca,"que, "veio enriquecer de modo especial o património arqueológico de uma região".
Não quero duvidar da descoberta que foi feita, mas permito-me discordar quando é dito (e parece ser a principal conclusão do trabalho, pois destaca-se nas conclusões e merece duas fotografias) que "Os pretensos menires das Pedras Altas (Fataúnços) e Bicão dos Conqueiros (Ventosa), no concelho de Vouzela, Viseu, perpetuados na bibliografia da especialidade desde que Amorim Girão os assinalou em 1921, mais não são afinal que meros blocos naturais de morfologia mais ou menos sugestiva, não devendo portanto continuar a ser referidos como verdadeiros menires pré-históricos".
Eu não sou arqueólogo, mas como escreveu Amorim Girão, "não se alegue falta de conhecimentos técnicos nestes assuntos, em que uma boa vontade e uma observação rigorosa.." por vezes valem mais que muitos livros ou palavras... E desde há vários anos, que todos os anos vou até ao Bicão dos Conqueiros, e, dizer que não existe um aspecto antropomórfico, só quem nunca lá foi!
Também o Académico João Luís Cardoso, numa publicação da Academia Portuguesa de História datada de 1999 – “Vouzela- Estudos Históricos”, no capítulo “Monumentos megalíticos do concelho de Vouzela”, pág. 172-174, se refere de forma exautiva àqueles dois menires, que são também referenciados por V. Leisner em 1998 no seu livro “Die Megalithgraber der Iberischen Halbinsel”.
Gostava sinceramente de saber qual a vossa opinião ácerca destes dois monumentos pré-históricos da nossa região, e se acham correcta a forma como aqueles dois autores os apagam da lista de antiguidades pré-históricas do nossso país, sem, na minha modesta opinião, sustentarem minimamente essa tese.
Não quero de forma alguma ir contra os especialistas, mas apenas ser esclarecido.
Gostava finalmente, e peço desculpa pelo tempo que vos tomei, de saber como me posso juntar à vossa Associação, pois apesar de não ser um especialista, sou desde há muitos anos um apaixonado pela arqueologia.
grato pela vossa atenção, despeço-me com os meus melhores cumprimentos"


Isto foi o que escrevi e reescrevi na altura sem resposta. Deixo-vos com duas fotografias de 1994 do Bicão dos Conqueiros e também uma fotagrafia dos impressionantes menires do conjunto megalítico "Os três irmãos" da Serra da Freita.
Tenho o hábito de não falar daquilo que ignoro
Sófocles


Tuesday, December 18, 2007



DA MINHA JANELA VIII




No mês mais produtivo da minha blogação, vai mais um olhar para dentro Da minha janela.




Consulta trocada


"O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele"

Nietzsche


No meio de mais uma tarde de consultas, numa quinta-feira cinzenta e fria de Março, felizmente quase fim de semana, surge-me um casal jovem com uma criança pequena de cerca de dois anos de idade, trazendo a mãe na mão um envelope com o que pareciam ser umas análises e mais alguns papéis que mais tarde me seriam mostrados, assim pensava eu.
Antes mesmo de se sentarem, a mãe da Filipa – assim se chamava a menina – estendeu-me o que trazia na mão e começou, antes mesmo que eu pudesse ver o que ela tinha pousado na secretária à minha frente:
- Doutor, nós viemos cá porque a nossa filha vai ser operada amanhã e nós queríamos saber se era mesmo preciso!
Perante esta introdução, sentei-me melhor na minha cadeira, respirei fundo e perguntei:
- Mas se a criança vai ser operada já amanhã, porque vieram cá e porquê apenas hoje?
- Foi uma amiga minha, que o doutor já viu o filho que nos disse que o doutor estava muito habituado com crianças e nos podia dar uma orientação sobre se ela precisa mesmo de ser operada ou não.
- Mas, afinal… - comecei eu, quando fui interrompido pela senhora, que continuou:
- Olhe – disse, apontando para cima da secretária – estão aqui as análises que o médico pediu e como ele ainda não as viu, gostava que o doutor me dissesse se estão bem para a menina ser operada.
- Mas… - ia eu de novo a tentar falar quando a senhora se levanta de repente e pegando na criança, a manda abrir a boca e deitar a língua de fora, dizendo:
- Está a ver doutor, a menina está com a língua assim branca desde ontem; acha que está a ficar doente? Se calhar não pode ser operada!
Antes que eu pudesse abrir a boca, não para mostrar a língua, mas para tentar falar, no meio daquele turbilhão de informação desencontrada, foi a vez do pai, até essa altura um pouco à margem do que se estava a passar no consultório, que atirou:
- Olhe doutor, e apareceram-lhe umas pintinhas vermelhas nas pernas; acha que é sarampo?
- Não – interrompeu a mãe – isso foi de certeza do chocolate que a tua mãe lhe deu ontem sem eu saber…
- Bem – disse eu, levantando-me e não deixando começar o que poderia vir a ser uma discussão conjugal em pleno consultório médico – vamos mas é ver a Filipa primeiro e depois continuamos a conversa, está bem?
Depois de uma cuidadosa observação, não consegui descobrir qualquer alteração nos ouvidos, nariz ou garganta da criança, pelo que disse aos pais:
- Da minha parte parece-me que está tudo bem!
- Mas – disse a mãe muito depressa, mostrando a barriga da menina – o doutor não lhe viu a barriga e, está a ver este alto aqui no umbigo, é a isto que ela vai ser operada!
Incrédulo, tentei explicar à mãe que aquele problema era resolvido por colegas de outra especialidade, mas foi em vão pois a senhora levantou-se, arrastando consigo o marido, a filha e os papéis que me havia colocado em cima da secretária e que eu não consegui chegar a ver, e boa ajuda me teriam dado…
Entre dentes ainda a ouvi dizer à saída do consultório:
- E ainda dizem que os médicos estudam muito, para não conseguirem ver uma coisa que até eu sem óculos consigo ver, parece impossível; e eu que tinha tão boas referências deste doutor!...

Tuesday, December 11, 2007


DA MINHA JANELA VII


Embalado com os "textos" que vou vendo Da minha janela, vou agora até Lisboa, há muitos anos atrás, num dia de Sporting-Benfica.


Benfica-Sporting

Esta história passou-se há alguns anos, num fim de tarde de domingo, talvez em Setembro ou Outubro, já não me lembro bem.
Estava eu no fim de um dia de urgência no hospital, ainda calmo, talvez porque o dia esteve bom e as pessoas foram para a praia, talvez porque fosse dia de Benfica-Sporting…
Chega então um senhor (e disto já me lembro bem), dos seus 40 anos, muito aflito, com sensação de falta de ar, aperto no peito, e que apontava com gestos frenéticos para qualquer sítio no fundo da sua garganta que não o deixava engolir nem mesmo respirar. Quanto ao engolir era bem verdade mas em relação ao respirar era o natural exagero de quem estava extremamente ansioso, até porque além do mais o seu clube tinha acabado de perder e logo com o grande rival, ainda por cima logo no início do campeonato. Era demais para um dia de domingo que estava a ser tudo, menos um dia de descanso entre duas semanas de trabalho no reinício do ano, após as férias de verão.
Perante este quadro, e a dificuldade até em falar do pobre homem, um amigo que o acompanhava começou a contar o que havia então sucedido:
- Eram cerca de quatro da tarde e preparávamo-nos para ir para o estádio ver o jogo que começava às sete e um quarto. Como sempre, fomos um pouco mais cedo para morder o ambiente e beber umas cervejas antes de começar a bola. Ora, este meu amigo teve a brilhante ideia de ir comer uma sandes de courato e lá nos dirigimos para a roulotte que ele entendeu mais apropriada para o apronto. Eu fiquei-me por uma bifana e uma sagres e aqui o rapaz – disse, dando-lhe uma palmada nas costas que o fez estremecer – emborcou duas cervejas e uma sandes de courato quase inteira de uma só dentada. A partir daí foi um ai Jesus, ai que não consigo engolir, ai que me falta o ar, ai que me dói o peito e um sem número de outros ais que não importa estar aqui a repetir (…), até chegarmos aqui para o doutor ver se lhe tira o mal do peito.
- Vamos então fazer uma radiografia para ver o que temos aí dentro, que eu próprio estou curioso.
A radiografia mostrava realmente, entre a garganta e o estômago uma série de ténues imagens que podiam corresponder a pedaços de courato da maldita sandes em dia de Benfica-Sporting.
O problema foi resolvido facilmente com um exame simples, com anestesia geral e, no dia seguinte, após beber um chazinho frio sem dificuldade, o senhor Antunes – lembro-me agora do nome dele – teve alta, jurando a pés juntos que nunca mais comia sandes de courato.
Passaram os anos e no dia de um grande jogo de futebol a que eu ia assistir, parei como tanta gente, numa daquelas roulottes para confortar o estômago antes do jogo, e ouço ao meu lado uma voz que me fez voltar alguns anos atrás:
- Por favor, era uma sandes de courato e uma sagres

Sunday, December 09, 2007




DA MINHA JANELA VI







Depois de uma boa noite de sono vou ver mais uma vista Da minha janela, desta vez sobre Belgrado em Abril de 2006.







Corvus corone cornix

Há uns tempos estive em Belgrado, em trabalho, durante alguns dias. Era a primeira vez que me deslocava a um país da ex-Jugoslávia, e logo à Sérvia, que continua a guardar as marcas de anos e anos de guerras e uma grande instabilidade social e de fronteiras (quando lá estive, ainda se chamava Sérvia e Montenegro!).
Numa visita guiada por Belgrado vimos vários edifícios oficiais da antiga Jugoslávia que guardam à vista de todos, sérvios e não sérvios, os resultados dos bombardeamentos da NATO em 1999, em que a capital Sérvia foi bombardeada todas as noites durante 79 dias. Curiosamente ou talvez não, as pessoas que viveram esses momentos dizem-nos que o seu dia-a-dia se manteve inalterado pois os bombardeamentos eram só de noite e os alvos eram estrategicamente escolhidos e raramente falhavam. É difícil de compreender para nós, assim como é difícil ver uma cidade e um país do centro da Europa (mas fora da nossa Europa) a viver uma vida tão diferente da nossa: as ruas e os edifícios sujos e degradados, um parque automóvel como eu nunca vi nem em Portugal, nem há trinta anos atrás, contudo um povo confiante no seu futuro, apesar da “nossa” Europa estar ainda a muitos anos de distância e apesar disso tão perto… Mas, dentro daquele atraso socio-económico havia um Danúbio magnífico que ainda este ano tinha galgado as suas margens, com as suas marcas ainda presentes nas casas submersas nas margens alargadas pelos caprichos da natureza. No centro da outrora capital da Jugoslávia destacava-se pela sua imponência e pela extraordinária recuperação levada a cabo nos últimos anos, a magnífica catedral ortodoxa de St. Sava que pela sua alvura e grandiosidade se destacava de todos os monumentos de Belgrado. Ao passarmos e admirarmos a catedral, perguntei a um dos monitores do curso, que nos acompanhava, qual era a religião predominante na Sérvia ao que ele respondeu que era a cristã ortodoxa, mas que só agora estava a recuperar de anos de “clandestinidade”. Quando lhe perguntei a razão de ser dessa sua afirmação ele respondeu-me assim:
- No tempo do comunismo a ida à igreja não era bem vista pelas autoridades e por isso muita gente, com medo de represálias, não frequentava os locais de culto. Na minha família, a minha mãe é religiosa e cristã, mas não podia frequentar a igreja, pois o meu pai trabalhava para os militares e era vedado à sua família a prática religiosa sob pena de perder o seu emprego; assim muitas pessoas, durante muitos anos não puderam expressar a sua fé livremente e eu durante muitos anos nunca entrei numa igreja. Agora as coisas são diferentes e as pessoas podem exprimir livremente a sua fé e por isso muitos dos templos abandonados e esquecidos durante o comunismo voltam a ter a seu esplendor de outrora e a encherem-se de crentes.
Outro grande monumento de Belgrado é a imponente fortaleza de Belgrado, situada num local muito amplo e elevado na confluência dos rios Danúbio e Sava, com as marcas presentes de uma ocupação humana desde o Neolítico. Esta fortaleza alberga um grande parque, como muitos que há em Belgrado com árvores frondosas, jardins imensos e um habitante muito peculiar, pelo menos para nós portugueses: o Corvus corone cornix, ou gralha cinzenta, que em grande abundância povoa as árvores, os jardins, os telhados e a vida desta cidade. É uma ave impressionante pela sua envergadura, pela sua beleza negra e cinzenta e pela forma como convive de perto com os seres humanos.
A primeira imagem que eu tive da gralha cinzenta foi ao chegar ao meu quarto do hotel e olhando para a janela, ver ali pousada uma enorme ave de cerca de meio metro de envergadura e com umas cores magníficas que eu nunca havia visto antes, e que me acompanhou durante os dias em que estive em Belgrado.
Quando me preparava para deixar o hotel, rumo ao aeroporto e como que para se despedir, vem pousar na janela do meu quarto a minha amiga gralha cinzenta; ou seria outra? Não me interessa verdadeiramente quem era, mas a imagem que me ficou de Belgrado foi a de Corvus corone cornix.
"É quando a arte se veste com o tecido mais usado, que melhor se a reconhece como arte."
Nietzsche